O sonho da medicina personalizada, que antes parecia restrito a laboratórios de ponta e à saúde privada, começa a se tornar realidade no Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. O projeto Genomas SUS, iniciativa do Ministério da Saúde dentro do programa Genomas Brasil, já sequenciou 100 mil genomas individuais e representa um salto tecnológico significativo para o sistema público de saúde do país. Desde 2020, foram investidos R$ 1,37 bilhão na empreitada, com R$ 330 milhões destinados apenas no ano passado.
A decisão de alocar recursos públicos vultosos em alta tecnologia genômica, em um sistema que ainda enfrenta desafios básicos como longas filas para exames e consultas, pode gerar questionamentos. No entanto, a justificativa reside na necessidade de democratizar o acesso a ferramentas de diagnóstico avançadas, evitando que a população mais carente seja privada de recursos que já se disseminam na esfera privada. A genômica, outrora vista com ceticismo por promessas exageradas de cura para doenças como o câncer, evoluiu consideravelmente. Hoje, a pesquisa avançada e a queda nos custos do sequenciamento permitem benefícios concretos para os pacientes.
Um dos principais avanços é a farmacogenômica, que, ao analisar as variantes genéticas de um indivíduo, possibilita a personalização de doses de medicamentos ou até mesmo a escolha de fármacos mais adequados para o tratamento. Além disso, o sequenciamento genético tem se mostrado crucial para a confirmação de diagnósticos de doenças raras, muitas com forte componente genético, e para a avaliação do prognóstico de enfermidades crônicas como o diabetes tipo 2. Os dados coletados pelo Genomas SUS, com o registro dos males (fenótipos) dos pacientes atendidos, servirão como material valioso para estudos que associam variantes genéticas a doenças específicas.
O projeto enfrenta, contudo, o desafio da representatividade da diversidade genética brasileira. Assim como em outras regiões do mundo fora da Europa, América Latina, África e Ásia, os estudos genômicos mais abrangentes frequentemente se baseiam em populações de origem europeia. No Brasil, com a forte presença de ancestrais africanos e indígenas, a falta de sequências genéticas representativas dessa população é uma lacuna a ser preenchida. Para contornar essa situação, o Genomas SUS está estabelecendo oito centros regionais equipados com tecnologia de ponta e métodos de análise padronizados, visando cobrir todas as regiões do país.
Embora a promessa de uma medicina de precisão completa ainda esteja em desenvolvimento e longe de impactar plenamente a ponta da assistência em saúde, a iniciativa do SUS representa um passo fundamental. Ao priorizar o sequenciamento genético em larga escala dentro do sistema público, o Brasil se posiciona na vanguarda da saúde personalizada, buscando garantir que os benefícios da genômica alcancem todos os cidadãos, independentemente de sua condição socioeconômica. As informações apresentadas neste texto foram compiladas a partir de dados e análises divulgadas pelo Ministério da Saúde e por reportagens sobre o projeto Genomas SUS.
