Desmistificando os Músculos: a efemeridade dos ganhos com anabolizantes
O universo do fisiculturismo, frequentemente envolto em mitos, parece antecipar descobertas científicas. Um estudo recente publicado no The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism lança luz sobre a durabilidade dos resultados obtidos com o uso de esteroides anabolizantes, confirmando uma percepção já disseminada entre praticantes: o chamado “shape de aluguel”. A pesquisa investigou se a melhora na composição corporal, marcada pelo ganho de massa magra e perda de gordura, se mantém após a interrupção do uso dessas substâncias.
A investigação acompanhou 79 homens adultos, praticantes recreativos de musculação, que realizaram ciclos de anabolizantes com duração mediana de dez semanas e dose semanal de 600 mg. A composição corporal foi avaliada antes do início do ciclo, durante o oitavo semana e aproximadamente três meses após o término do uso das drogas. Os resultados indicam que, enquanto o ciclo estava ativo, houve um ganho expressivo de peso corporal (+4,9 kg), majoritariamente de massa livre de gordura (+4,4 kg), sem alterações significativas na gordura corporal.
No entanto, a realidade pós-ciclo se mostrou menos promissora. Três meses após a cessação do uso, a maioria dos ganhos havia desaparecido. Em média, restou uma retenção de apenas 1,6 kg no peso total e 1,2 kg na massa magra em relação ao patamar inicial. Essa perda acelerada de massa muscular foi observada tanto em usuários de ciclos intercalados quanto no esquema “blast and cruise”, que alterna doses altas com fases de manutenção, sugerindo que nenhuma estratégia é eficaz para sustentar os ganhos a longo prazo.
A Explicação por Trás da Perda Rápida
Os pesquisadores apontam que a potência anabólica dos esteroides no curto prazo pode estar ligada a retenções hídricas e de glicogênio, em vez de um acúmulo permanente de proteína contrátil. Essa acentuada perda muscular no pós-ciclo, combinada com os sintomas da queda temporária de testosterona natural, frequentemente leva à frustração e à busca por novos ciclos para recuperar o físico perdido. Esse ciclo vicioso pode configurar um quadro de dependência, elevando os riscos de eventos adversos.
O “Shape de Aluguel” e a Efemeridade do Corpo Idealizado
A constatação de que os ciclos de esteroides não promovem melhorias duradouras na composição corporal valida a expressão “shape de aluguel”, popular no meio fitness. O termo descreve a facilidade com que se ganha e se perde o corpo desejado com o uso de hormônios. Contudo, essa efemeridade não se restringe aos anabolizantes. Canetas emagrecedoras, dietas da moda e regimes de treinamento extremos também podem resultar em um “corpo alugado”, com contratos que expiram após um período, gerando o conhecido efeito sanfona.
A conclusão é que o mercado fitness, em muitas de suas vertentes, oferece resultados que podem ser mais comparados a um aluguel do que a uma aquisição permanente, ressaltando a importância de abordagens sustentáveis e baseadas em saúde a longo prazo.
