Morre François Englert, Nobel que ajudou a desvendar a 'partícula de Deus'
Morre François Englert, Nobel que ajudou a desvendar a ‘partícula de Deus’

Morre François Englert, Nobel que ajudou a desvendar a ‘partícula de Deus’

Físico François Englert, um dos pais do mecanismo de Higgs, falece aos 93 anos François Englert, físico belga laureado com o Prêmio Nobel de Física em 2013, faleceu na última quinta-feira (18) em Uccle, um subúrbio de Bruxelas, aos 93 anos. Englert, ao lado do físico britânico Peter Higgs, foi crucial no desenvolvimento da teoria […]

Resumo

Físico François Englert, um dos pais do mecanismo de Higgs, falece aos 93 anos

François Englert, físico belga laureado com o Prêmio Nobel de Física em 2013, faleceu na última quinta-feira (18) em Uccle, um subúrbio de Bruxelas, aos 93 anos. Englert, ao lado do físico britânico Peter Higgs, foi crucial no desenvolvimento da teoria que explica como as partículas subatômicas adquirem massa, um conceito fundamental no Modelo Padrão da física de partículas e que levou à descoberta do Bóson de Higgs, popularmente conhecido como “partícula de Deus”.

A confirmação da existência do Bóson de Higgs ocorreu em 2012, em experimentos realizados no Cern (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear). A descoberta validou o mecanismo proposto por Englert e Higgs, que postula a existência de um campo onipresente que interage com as partículas, conferindo-lhes massa. Essa teoria se tornou um pilar da física moderna, ajudando a unificar a compreensão das forças fundamentais da natureza.

Englert e Higgs dividiram o Nobel de Física em 2013 pela “descoberta teórica de um mecanismo que contribui para nossa compreensão da origem da massa das partículas subatômicas”. A morte do cientista foi anunciada pelo Cern em seu website, marcando o fim de uma era para a física teórica.

As origens da teoria e a busca pela massa

O trabalho de Englert teve início no final da década de 1950, quando colaborava com o físico teórico Robert Brout na Universidade Cornell. Inspirados pelo trabalho de Yoichiro Nambu sobre a quebra de simetria, Englert e Brout se debruçaram sobre um dos grandes enigmas da física: a aparente contradição entre as simetrias observadas em algumas interações fundamentais e a necessidade de massa para as partículas portadoras da força fraca, como os bósons W e Z.

A simetria é um conceito crucial na física, descrevendo a invariância de um sistema sob certas transformações. Enquanto teorias que descrevem o eletromagnetismo e a força forte apresentavam simetrias consistentes, a tentativa de incorporar a força fraca, responsável pelo decaimento radioativo, resultava em bósons de calibre massivos, o que violava a simetria das equações.

A teoria de Nambu, que recebeu o Nobel em 2008, explicou matematicamente como a simetria poderia ser quebrada espontaneamente, de forma análoga a um lápis em equilíbrio que inevitavelmente cai, perdendo sua simetria. No entanto, a questão da origem da massa dos bósons W e Z permaneceu em aberto. Em 1964, Englert e Brout propuseram a existência de um campo fundamental que interage com as partículas, conferindo-lhes massa. Pouco tempo depois, Peter Higgs publicou um artigo com uma solução semelhante, e outros físicos como Gerald Guralnik, C. Richard Hagen e Tom Kibble também contribuíram com abordagens similares.

O mecanismo de Brout-Englert-Higgs e a descoberta do Bóson

Coletivamente, esses trabalhos são reconhecidos como o mecanismo de Brout-Englert-Higgs, ou em sua forma mais completa, mecanismo de Englert-Brout-Higgs-Guralnik-Hagen-Kibble. A teoria previa que, sob condições de alta energia, o campo de Higgs poderia gerar uma partícula associada, o Bóson de Higgs. Essa partícula, extremamente instável, se desintegra quase instantaneamente, mas sua detecção em 2012 no Cern confirmou a existência do campo e, por extensão, a validade do mecanismo.

Robert Brout faleceu em 2011, antes de receber o Nobel, mas foi reconhecido com o Prêmio Wolf de Física em 2004, juntamente com Englert e Higgs. Todos os seis cientistas foram homenageados com o Prêmio J.J. Sakurai de Física Teórica de Partículas em 2010.

Vida e legado de François Englert

Nascido em 6 de novembro de 1932, em Etterbeek, na Bélgica, François Englert era filho de imigrantes judeus poloneses. Sua infância foi marcada pela perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1942, sua família se separou para aumentar as chances de sobrevivência, e François foi escondido com um casal de donos de um café. A família se reuniu posteriormente e encontrou refúgio em uma vila nas Ardenas, onde um padre os protegeu, apresentando-os como cristãos e chegando a batizar François para que ele pudesse frequentar a escola.

Apesar de ter sobrevivido ao Holocausto, muitos de seus parentes na Polônia foram mortos. Englert, em entrevistas posteriores, revelou que inicialmente reprimiu as memórias desse período traumático para se proteger. Após a guerra, formou-se em engenharia eletromecânica pela Universidade Livre de Bruxelas em 1955, mas seu interesse pela física o levou a obter mestrado e doutorado na área. Foi durante seu período como pesquisador associado na Universidade Cornell que ele conheceu Robert Brout.

Ao retornar à Bélgica em 1961, Englert se juntou à Universidade Livre de Bruxelas, onde fundou, junto com Brout, um influente grupo de física teórica. Além de suas contribuições científicas, Englert foi condecorado com o título de Barão pelo Rei Alberto II da Bélgica em 2013. Ele deixa três filhos de seu primeiro casamento e dois de seu segundo, além de sua terceira esposa, Mira Nikomarow.

Em uma entrevista de 2017, Englert expressou sua gratidão às pessoas que o salvaram durante a guerra, afirmando que beijaria seus salvadores e lhes diria que conseguiu fazer algo com sua vida graças a eles e a seus pais.

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