Filho do presidente é investigado por suspeita de tráfico de influência após vazamento de mensagens
Novas mensagens de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, trocadas com a lobista Roberta Luchsinger e vazadas na segunda-feira (17), apontam fortes indícios de crime de tráfico de influência. As evidências envolvem não só o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas também membros de diferentes escalões no governo federal. Essas mensagens devem favorecer o candidato Flávio Bolsonaro (PL) na corrida eleitoral, segundo analistas ouvidos pela reportagem.
As comunicações, realizadas por WhatsApp e interceptadas pela Polícia Federal, constam em inquéritos que tramitam no Supremo Tribunal Federal (STF). As evidências mostram que Lulinha e Roberta discutiram sobre possíveis ações de lobby junto ao núcleo do governo de Lula ao menos entre 2023 e 2024, apontando supostos contatos com Marco Aurélio Santana Ribeiro, então chefe de gabinete de Lula, e Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde. Em uma das apurações, Lulinha é investigado por usar seu prestígio para favorecer empresas em negociações com o Ministério da Saúde para conseguir autorizações para a comercialização de produtos de cannabis medicinal.
Roberta Luchsinger já vinha sendo investigada por receber repasses de R$ 1,5 milhão de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, envolvido em desvios bilionários do órgão. Em mensagens apreendidas, Antunes teria mencionado a necessidade de creditar “mais uma parcela” de R$ 300 mil em uma determinada operação e, ao ser questionado sobre o destinatário, respondeu: “o filho do rapaz” – em provável referência a Lulinha. Em um diálogo de março de 2024, Roberta afirmou a Lulinha que o grupo atuava em “nível diferenciado” e que o “futuro é a Suíça”.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo portal Metrópoles, jornal O Globo e confirmadas pela Gazeta do Povo.
Impacto eleitoral e desgaste na imagem do governo
Analistas políticos projetam que a exploração política do episódio pela oposição tende a durar ao menos até o pleito eleitoral. “Eu entendo que essa questão do filho do presidente estará presente ao longo da campanha. Não é algo que vai se encerrar automaticamente. Esses vazamentos, inclusive, devem continuar ao longo da campanha. Evidente que isso tende a desgastar Lula diante do eleitorado mais moderado e entre aqueles que ainda não definiram o voto”, avalia o cientista político Leandro Gabiati, diretor da Dominium Consultoria.
O escândalo reabre feridas associadas a apadrinhamento político, aparelhamento estatal e trânsito de influências no entorno da família presidencial. A divulgação de conversas obtidas pela Polícia Federal atinge o Palácio do Planalto no momento em que a gestão petista tenta blindar a agenda econômica. Levantamentos do Instituto Quaest já refletem impacto negativo da abertura de apurações contra Lulinha no STF no fim de julho.
Em 15 de julho, a Quaest registrava Lula com 45% das intenções de voto no segundo turno contra 37% de Flávio Bolsonaro. No dia 30 de julho, o ministro André Mendonça autorizou a abertura de dois inquéritos para apurar o envolvimento de Lulinha em tráfico de influência e corrupção. Em 3 de agosto, um terceiro inquérito foi instaurado para apurar o favorecimento da empresa de tecnologia 3Structure IT Ltda. Na pesquisa Quaest de 5 de agosto, Lula caiu para 44% e Flávio subiu para 39%, encurtando a distância para cinco pontos. Na rodada seguinte, divulgada em 14 de agosto, Lula oscilou para 43% enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 40%, configurando empate técnico na margem de erro.
Oposição intensifica pressão e pede oitiva de Lulinha
O cientista político Marcos Quadros, diretor acadêmico da Universidade Estácio, analisa o reflexo direto das denúncias de corrupção na decisão do eleitorado indeciso. “As pesquisas são fotografias do momento político específico. O eleitor indeciso, que vota à direita e à esquerda a depender das circunstâncias, certamente será o fiel da balança nessas eleições. O envolvimento do filho de Lula com a rapinagem do erário público tem impacto certo”, avaliou.
A oposição intensificou a pressão por novas providências para investigar Lulinha. O senador Carlos Viana (PSD-MG) protocolou pedido ao STF para a preservação imediata das provas e para que seja avaliada a possibilidade de ouvir Lulinha pelas autoridades. Na Câmara, o líder da Oposição, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), pretende protocolar uma representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) cobrando providências e a oitiva de Lulinha.
A defesa de Fábio Luís Lula da Silva afirma confiar no Poder Judiciário e que se manifestará “no momento oportuno”, contestando a interpretação dada às mensagens e alegando que se tratam de “recortes seletivos” que podem estar fora de contexto. A defesa de Roberta Luchsinger não se pronunciou em razão do segredo de justiça.
