Aumento de Casos e Dificuldades no Combate à H. pylori Preocupam Especialistas
O câncer de estômago continua a ser uma causa significativa de mortalidade no Brasil, com projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontando para um aumento de casos até 2028. Estimativas indicam cerca de 22,5 mil novos diagnósticos no triênio 2026-2028, um acréscimo em relação aos períodos anteriores. Essa tendência de alta é atribuída a fatores como a prevalência da obesidade, o envelhecimento populacional e, principalmente, a dificuldade em erradicar a bactéria Helicobacter pylori (H. pylori), principal agente etiológico da doença em nível mundial.
A taxa de mortalidade por câncer gástrico no país ultrapassa os 60%. O cenário é agravado pela escassez de recursos para o combate efetivo à H. pylori, o que perpetua as infecções e eleva o número de óbitos. Dados históricos do Inca demonstram um aumento progressivo nas mortes pela doença nas últimas duas décadas, atingindo quase 15 mil óbitos em 2019 e mantendo-se em patamares elevados nos anos seguintes.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Inca e entrevistas com especialistas como o gastroenterologista James Ramalho Marinho e o endoscopista e gastroenterologista Ismael Maguilnik.
Diagnóstico Tardio e Falta de Monitoramento no SUS
O gastroenterologista James Ramalho Marinho destaca que a alta taxa de mortalidade está diretamente ligada ao diagnóstico tardio. A H. pylori e as doenças gástricas associadas são frequentemente silenciosas e negligenciadas pela população. Para agravar a situação, o Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta limitações para monitorar e tratar a infecção pela bactéria em larga escala. Muitas vezes, os pacientes chegam ao consultório com suspeitas de problemas menos graves, quando a doença já se encontra em estágio avançado.
Estima-se que cerca de 70% da população brasileira esteja infectada pela H. pylori, mas o sistema público de saúde não dispõe de capacidade para oferecer exames invasivos como a endoscopia para toda essa parcela da população, nem mesmo métodos menos invasivos de forma generalizada. A H. pylori é responsável por aproximadamente 78% dos casos de câncer gástrico no Brasil, segundo estudos que correlacionam a prevalência da bactéria com o risco associado à infecção.
A Cascata de Pelayo Correa e Outros Fatores de Risco
A infecção pela H. pylori desencadeia a chamada cascata de Pelayo Correa, uma sequência de alterações inflamatórias na mucosa do estômago que pode evoluir para gastrite crônica, atrofia, metaplasia intestinal e, posteriormente, displasia – uma condição pré-cancerosa. Em alguns indivíduos, esse processo culmina no adenocarcinoma gástrico, o tipo mais comum de câncer de estômago.
Além da H. pylori, outros fatores de risco contribuem para o desenvolvimento da doença. O consumo de alimentos ricos em sal, como os ultraprocessados, é um agravante importante. O tabagismo, o consumo de bebidas alcoólicas e a obesidade também são considerados fatores facilitadores para o surgimento de cânceres gástricos. A contaminação pela H. pylori, por sua vez, está associada a más condições sanitárias e falta de saneamento básico, sendo mais prevalente em populações socioeconomicamente vulneráveis.
Novas Tecnologias e Desafios no Tratamento
Para um diagnóstico mais precoce e eficiente da H. pylori, o endoscopista Ismael Maguilnik sugere a implementação de testes respiratórios com carbono 13, um método não invasivo que poderia auxiliar na identificação da bactéria. No entanto, o Ministério da Saúde informa que ainda não há pedidos de incorporação dessa tecnologia na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Testes de antígeno nas fezes também existem, mas apresentam um índice considerável de resultados falso-negativos.
A erradicação da H. pylori, essencial para frear o aumento do câncer gástrico, esbarra não apenas nas dificuldades de diagnóstico, mas também na clareza sobre o tratamento mais eficaz. Geralmente, o tratamento envolve a combinação de antibióticos com medicamentos redutores de acidez estomacal. Contudo, o aumento da resistência bacteriana a alguns antibióticos tem levado a diretrizes que recomendam o uso cauteloso dessas substâncias. Especialistas ressaltam que o controle da infecção e a conscientização sobre hábitos de vida saudáveis, como a redução do consumo de sal, ultraprocessados, álcool e cigarro, são cruciais.
Recomendações e Avanços no Tratamento Oncológico
As recomendações para rastreamento de câncer gástrico incluem o início aos 30 anos para indivíduos com histórico familiar da doença e aos 40 anos para aqueles sem histórico ou problemas gástricos prévios. Medidas de higiene, como a lavagem adequada de alimentos e mãos, e o consumo de água de qualidade conhecida, também são importantes, embora não resolvam o problema em larga escala. O Ministério da Saúde anunciou a disponibilização de 23 novos medicamentos para o tratamento de câncer na rede pública, incluindo o trastuzumabe, que pode reduzir tumores de estômago HER2 positivo em até 50% dos casos.
