A dupla face do carinho felino
Um comportamento comum entre gatos, a lambida mútua, tem sido tradicionalmente interpretado como um sinal de forte vínculo social e afeto. Assim como primatas que se limpam para fortalecer laços, acreditava-se que gatos se lambiam para reforçar amizades e demonstrar cuidado. No entanto, uma investigação recente publicada na revista Applied Animal Behavior Science lança uma nova luz sobre essa interação, revelando que nem toda lambida é um gesto de carinho. Em alguns casos, pode ser, na verdade, uma forma sutil de assédio ou intimidação.
A cientista comportamental de gatos Noema Gajdos Kmecova, da Universidade de Gante, na Bélgica, e autora do estudo, explica que, até então, a higiene mútua em felinos era categorizada como um comportamento afiliativo, ou seja, “amigável”. Contudo, observações mais detalhadas começaram a questionar essa premissa.
As descobertas foram motivadas por observações pessoais da pesquisadora Morgane Van Belle, também da Universidade de Gante. Ela notou em seus próprios gatos um padrão de lambidas que parecia mais irritante do que afetuoso. Em uma ocasião, um gato que estava confortavelmente deitado em um local ensolarado foi persistentemente lambido por outro, a ponto de se levantar e ceder o lugar. Essa interação não se alinhava com o conceito de cuidado mútuo.
Investigando a dinâmica social felina
Para verificar se esse comportamento era isolado ou mais comum, Van Belle e sua equipe analisaram vídeos de interações em 53 residências na Europa com múltiplos gatos. Os tutores foram instruídos sobre o que observar, e os pesquisadores, após receberem as submissões, aplicaram análises estatísticas para desvendar as nuances por trás das lambidas.
A análise revelou que o significado da lambida mútua varia significativamente dependendo do contexto. Em uma parte dos vídeos, as lambidas ocorriam em áreas de difícil acesso, como a cabeça e o pescoço, e eram acompanhadas por posturas corporais relaxadas e de proximidade, confirmando o papel de fortalecimento de laços sociais. Os gatos demonstravam maior probabilidade de imitar as posturas um do outro, sentando-se juntos antes e depois da interação.
Lambidas como tática de conflito velado
Por outro lado, um subconjunto de vídeos mostrou um cenário distinto. Nesses casos, as lambidas frequentemente precediam conflitos e eram caracterizadas por posturas corporais desiguais, como um gato em pé lambendo outro sentado. As lambidas consideradas “agressivas” eram seguidas por sinais de estresse no gato lambido, incluindo olhares fixos, miados altos, orelhas giradas, lambidas nos lábios e até patadas no agressor. Esses comportamentos não são consistentes com a ideia de higiene mútua.
“Com base em nossas descobertas, esse comportamento está associado a pelo menos dois contextos: vínculo social e tensão social”, afirma Kmecova. Os pesquisadores levantam a hipótese de que lambidas indesejadas podem servir como uma forma menos arriscada de provocar outro gato, evitando uma briga direta que poderia resultar em ferimentos. Uma lambida irritante, estrategicamente aplicada, seria uma maneira mais segura de comunicar ao outro felino que ele deve se afastar.
A veterinária Ashley Elzerman, que não participou do estudo, comentou que a pesquisa empírica é valiosa para aumentar a compreensão da dinâmica social em lares com múltiplos gatos, onde tensões sutis podem ser difíceis de identificar pelos tutores. As novas descobertas oferecem uma perspectiva importante para veterinários e donos de gatos, auxiliando na melhor interpretação do comportamento felino e na identificação de possíveis sinais de frustração ou desconforto.
Estudos futuros poderão ainda aprimorar a seleção de companheiros para lares com mais de um gato, tanto em centros de adoção quanto para tutores que desejam introduzir novos membros felinos em suas famílias. A colaboração dos próprios gatos nesse processo, claro, permanece uma incógnita.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The New York Times.
