O rugido que o mundo não esqueceu
Em 26 de agosto de 1883, o vulcão Krakatoa, na Indonésia, entrou em erupção de forma catastrófica, gerando o som mais alto já registrado na história. A explosão titânica, que ocorreu às 10h02 do dia seguinte, foi ouvida a mais de 4.600 quilômetros de distância, chegando até a Austrália e a ilha Maurício. A força do evento foi tamanha que vaporizou cerca de 25 quilômetros cúbicos de rocha, lançando cinzas a uma altura de 80 quilômetros na atmosfera e mergulhando a região em escuridão por mais de dois dias.
As informações sobre este evento foram reunidas a partir de relatos históricos, incluindo dados dos Centros Nacionais de Informação Ambiental dos Estados Unidos (NCEI) e depoimentos de testemunhas, como os compilados pela BBC.
O prelúdio de uma catástrofe
Os primeiros sinais da atividade vulcânica foram observados em maio de 1883, quando nuvens de cinzas e poeira começaram a emanar do Krakatoa, que permanecia inativo há aproximadamente 200 anos. Nos meses seguintes, marinheiros de diversas embarcações registraram relatos de fenômenos incomuns na região. A sequência de erupções culminou em uma série de explosões em 27 de agosto, culminando na explosão principal que redesenhou a geografia local.
Sidney Baker, que presenciou o evento ainda menino a bordo do navio de seu pai, descreveu o cenário de forma vívida: “O ar parecia tomado por poeira, tanta que temíamos sufocar. Ficou tão escuro que não dava para enxergar a própria mão diante do rosto”. Ele também relatou a queda de centímetros de cinzas sobre a embarcação e o barulho das explosões como algo “inacreditável”, sem adjetivos capazes de descrever o estrondo e o caos.
Tsunamis e a devastação global
A explosão principal do Krakatoa criou um vácuo momentâneo no mar, que foi instantaneamente preenchido por trilhões de toneladas de água. O aquecimento extremo dessa água resultou em tsunamis gigantescos, que foram a causa da maior parte das mais de 36 mil mortes registradas. Cidades inteiras foram submersas, como relatou Baker sobre Anjer, na costa oeste de Banten, onde o hotel onde seu pai se hospedara foi completamente coberto pela água.
Além dos tsunamis, fluxos piroclásticos – avalanches rápidas de gases superaquecidos, cinzas e fragmentos de rocha – também atingiram as áreas costeiras, ceifando vidas daqueles que haviam escapado das ondas. Os efeitos da erupção, no entanto, transcenderam a região. As cinzas lançadas na atmosfera criaram um halo ao redor do Sol e da Lua, filtrando a radiação solar e reduzindo a temperatura média global em até 0,5°C por cerca de cinco anos. Amanheceres e entardeceres avermelhados foram observados em diversas partes do mundo, um fenômeno que se acredita ter inspirado obras de arte, como o céu do quadro “O Grito” de Edvard Munch.
Um marco científico e a percepção de um planeta interligado
A erupção do Krakatoa não foi apenas um desastre natural, mas também um divisor de águas para a ciência. Pela primeira vez, a humanidade com uma consciência científica percebeu que um único evento poderia afetar o planeta inteiro. Foi nesse contexto que se compreendeu a existência das correntes de jato (“jet streams”), correntes de ar invisíveis nas camadas mais altas da atmosfera que influenciam o clima global. Essa percepção da interconexão mundial, fundamental para entendimentos posteriores como o aquecimento global, teve suas raízes na magnitude dos efeitos atmosféricos provocados pelo Krakatoa.
Curiosamente, o vulcão Anak Krakatau, que significa “filho do Krakatoa”, entrou em erupção em julho de 2023, lançando colunas de cinzas de até 250 metros de altura, embora sem representar ameaça imediata às comunidades próximas. O vulcão Anak Krakatau surgiu em 1927, a partir da caldeira deixada pela erupção de seu predecessor.
