A infertilidade masculina, quando descoberta tardiamente, pode prolongar o sofrimento de casais que anseiam por ter filhos. Em muitos casos, a investigação inicial se concentra na saúde da mulher, deixando de lado a análise da fertilidade masculina, que está presente em cerca de metade dos casais com dificuldades para conceber. A situação de Sandro dos Santos, 55 anos, espelha essa realidade. Após uma década de relacionamento e anos de exames focados na esposa, foi somente quando ele passou a ser investigado que a causa da infertilidade foi identificada: baixa integridade do DNA espermático.
A história de Sandro, que inicialmente sentiu um forte impacto emocional e em seu ego ao descobrir o problema, não é um caso isolado. Um estudo publicado na revista The Lancet em 2020 aponta que a infertilidade afeta entre 8% e 12% dos casais globalmente, com o fator masculino contribuindo em aproximadamente metade desses casos. No entanto, a ginecologista Ângela D’Ávila, especialista em reprodução humana, observa que ainda é comum que a investigação seja desigual. “Ainda recebo muitos casais em que a mulher já chega com uma extensa investigação realizada, enquanto o parceiro sequer fez um exame”, relata.
Fábio Pasqualotto, professor de urologia, corrobora essa observação, afirmando que a prioridade na investigação da mulher é uma ocorrência frequente em seu consultório. Especialistas defendem que o protocolo ideal envolve a investigação simultânea do casal, mas fatores culturais dificultam essa prática. A Dra. D’Ávila explica que as mulheres, por terem contato mais regular com ginecologistas desde a adolescência para acompanhamento de rotina, saúde reprodutiva ou contracepção, tendem a iniciar a investigação de infertilidade nessas consultas. Em contrapartida, muitos homens nunca passaram por uma avaliação urológica focada na fertilidade.
Diagnóstico e Causas da Infertilidade Masculina
Em clínicas de reprodução humana, a abordagem costuma ser mais equitativa. A avaliação feminina inclui exames de reserva ovariana, ovulação, níveis hormonais, anatomia uterina e tubária, além do histórico clínico. Para os homens, o ponto de partida é o espermograma, que analisa quantidade, motilidade e morfologia dos espermatozoides. Dependendo dos resultados, podem ser requisitados exames hormonais, genéticos, de imagem e testes específicos, como a fragmentação do DNA espermático, para identificar problemas não detectados no exame convencional.
Diversos fatores podem comprometer a fertilidade masculina. A varicocele, dilatação das veias testiculares que pode elevar a temperatura local e prejudicar a produção de espermatozoides, é uma das causas mais comuns. Alterações hormonais, doenças genéticas, obstruções nos canais espermáticos, infecções, sequelas de caxumba, uso de anabolizantes, certos medicamentos, tratamentos oncológicos e doenças sistêmicas também são fatores relevantes. O estilo de vida também desempenha um papel crucial, com obesidade, tabagismo, consumo excessivo de álcool, uso de drogas, exposição a toxinas ocupacionais, privação de sono e sedentarismo associados à piora da qualidade seminal.
O uso de anabolizantes, como testosterona e esteroides, para fins estéticos ou ganho muscular, é particularmente preocupante, pois pode interromper a produção natural de hormônios pelos testículos, levando à redução drástica ou ausência de espermatozoides. Além de dificultar a concepção, a infertilidade masculina pode ser um sinal de alerta para outros problemas de saúde, como um risco aumentado de desenvolver câncer de testículo, segundo estudos.
Tratamento e Superação
O tratamento da infertilidade masculina varia conforme o diagnóstico. Varicocele pode ser corrigida cirurgicamente, alterações hormonais respondem a medicamentos, e infecções requerem terapias específicas. Mudanças no estilo de vida, como perda de peso, cessação do tabagismo, moderação no consumo de álcool e suspensão de anabolizantes, também podem melhorar a qualidade seminal.
No caso de Sandro, um tratamento com gonadotrofina, que estimula a produção de testosterona e espermatozoides, foi indicado. Após cerca de três anos de investigação e tratamento, o casal celebrou a gravidez da esposa. Sandro compartilha que houve momentos de dúvida e consideração por outros caminhos, como a reprodução assistida ou adoção, mas a cumplicidade e o apoio mútuo foram fundamentais. Hoje, pais de Valentina e Thiago, eles celebram a realização do sonho. Quando a gestação natural não é viável, técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro, oferecem alternativas tecnológicas para auxiliar casais na busca pela paternidade e maternidade.
