Pacientes com hipotireoidismo apresentam quadros mais frequentes e graves de apneia obstrutiva do sono (AOS), distúrbio que interrompe a respiração durante a noite. Um estudo publicado na revista científica Sleep, conduzido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com financiamento da Fapesp, aponta ainda que o tratamento hormonal para a condição tireoidiana pode levar a um sono mais reparador.
A pesquisa, baseada em dados do Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo (Episono) entre 2018 e 2019, analisou 761 moradores da capital paulista. Os resultados indicaram que 12,6% dos participantes sofriam de hipotireoidismo, e destes, quase metade (49,5%) apresentava apneia obstrutiva do sono. Este índice é significativamente maior do que o encontrado na literatura médica geral, que geralmente aponta prevalências entre 30% e 40% para a apneia em pacientes com hipotireoidismo.
A relação entre as duas condições tem sido foco de interesse científico, visto que tanto a tireoide quanto o sono desempenham papéis cruciais na manutenção do equilíbrio do organismo (homeostase). A tireoide regula funções vitais como metabolismo e temperatura corporal, enquanto o sono é fundamental para a recuperação física e a regulação hormonal. A complexa interação sugere que alterações no sono podem afetar a regulação hormonal e disfunções tireoidianas podem impactar negativamente a qualidade do descanso.
Os achados do estudo reforçam essa hipótese. Indivíduos com hipotireoidismo apresentaram noites de sono mais fragmentadas e maior incidência de apneia obstrutiva do sono em comparação com o restante dos participantes. Notavelmente, níveis mais elevados do hormônio TSH (indicador da função tireoidiana) estavam associados a formas mais graves de apneia. De forma surpreendente, a pesquisa também observou o caminho inverso: características de pior qualidade de sono e maior gravidade da apneia se relacionaram a uma maior probabilidade de hipotireoidismo, sugerindo uma interação bidirecional entre as condições.
O impacto do tratamento hormonal
Um dos aspectos mais relevantes do estudo foi a análise do impacto do tratamento do hipotireoidismo com reposição hormonal. Pacientes em tratamento dormiram, em média, 49 minutos a mais por noite e passaram cerca de 22 minutos adicionais no estágio de sono profundo (N3), crucial para reparação tecidual e consolidação da memória. Esses dados indicam um efeito positivo da levotiroxina na arquitetura do sono, contribuindo para uma melhor qualidade de vida e controle da doença.
Apesar dos benefícios do tratamento hormonal para o sono, as pesquisadoras alertam que ele não substitui a avaliação e o tratamento específico da apneia do sono. Ambas as condições, quando não tratadas, aumentam o risco de doenças cardiovasculares. A apneia causa quedas na oxigenação e sobrecarga cardiovascular, enquanto o hipotireoidismo contribui para alterações metabólicas e ganho de peso, fatores de risco para complicações. A coexistência das duas doenças pode potencializar esses riscos.
As pesquisadoras Ellen Maria Sampaio Xerfan e Mônica Levy Andersen, da Unifesp, ressaltam a importância de uma abordagem clínica integrada. Profissionais de saúde devem considerar a investigação da função tireoidiana em pacientes com apneia do sono e a avaliação de distúrbios do sono em pacientes com hipotireoidismo. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado de ambas as condições são essenciais para melhorar a qualidade de vida e reduzir riscos à saúde.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Sleep e pela Unifesp.
