Governo Lula cogita incluir 'Conselhão' na Constituição, gerando debate sobre influência de ONGs
Governo Lula cogita incluir ‘Conselhão’ na Constituição, gerando debate sobre influência de ONGs

Governo Lula cogita incluir ‘Conselhão’ na Constituição, gerando debate sobre influência de ONGs

Planalto estuda incorporar órgão consultivo à Carta Magna, o que pode garantir permanência de agendas específicas no Estado. A possibilidade de o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) incluir o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), popularmente conhecido como “Conselhão”, na Constituição Federal tem gerado intenso debate. A iniciativa, que visa transformar o […]

Resumo

Planalto estuda incorporar órgão consultivo à Carta Magna, o que pode garantir permanência de agendas específicas no Estado.

A possibilidade de o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) incluir o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS), popularmente conhecido como “Conselhão”, na Constituição Federal tem gerado intenso debate. A iniciativa, que visa transformar o órgão consultivo em uma estrutura permanente do Estado, é vista pelo Planalto como um avanço na democracia participativa, mas por opositores, como uma forma de consolidar a influência de ONGs e movimentos sociais alinhados à agenda da esquerda nas decisões governamentais, independentemente da alternância de poder.

Criado originalmente no primeiro mandato de Lula e recriado em 2023, o “Conselhão” reúne centenas de representantes da sociedade civil, incluindo empresários, sindicalistas, acadêmicos, líderes religiosos, entidades do terceiro setor e organizações não governamentais (ONGs). O objetivo declarado é funcionar como um espaço de diálogo entre o governo e diversos segmentos da sociedade.

No entanto, a intenção de tornar o “Conselhão” uma cláusula constitucional acende um alerta em setores que veem na medida uma tentativa de institucionalizar um modelo específico de participação social. Críticos argumentam que a Constituição deve tratar de princípios gerais e não detalhar mecanismos específicos de participação, que deveriam ser regulados por leis ordinárias ou atos administrativos.

Críticas apontam para risco de ‘aparelhamento’ e privilégio de grupos

O cientista político Adriano Cerqueira avalia que a proposta pode ser uma resposta à ascensão de grupos conservadores e de direita. “A constitucionalização garantiria a permanência de grupos que promovem determinadas agendas dentro da estrutura estatal, independentemente da alternância de poder”, explica Cerqueira, ressaltando que a ideia é dificultar que futuras administrações alterem ou extingam o colegiado.

O deputado federal Gilson Marques (Novo-SC) compartilha dessa preocupação, enfatizando que a questão não é o direito à participação da sociedade civil, mas sim os limites da influência institucional. “Todos os setores da sociedade têm o direito de se manifestar. A preocupação surge quando o governo tenta transformar um espaço criado por decreto em um canal institucional privilegiado de influência política”, afirma Marques. Segundo ele, a legitimidade para formular políticas públicas deve recair sobre os representantes eleitos.

Juan Carlos Arruda, diretor-geral do Ranking dos Políticos, também expressa receio. “Ninguém é contra o diálogo com a sociedade civil. O problema começa quando esse diálogo deixa de ser plural, transparente e equilibrado e passa a funcionar como um canal privilegiado de influência política”, pondera Arruda. Ele alerta que, se a escolha dos membros continuar centralizada no Executivo, pode haver um acesso institucionalizado para organizações ideologicamente próximas à gestão de turno.

O deputado federal Luiz Lima (Novo-RJ) defende que qualquer mecanismo de participação social deve garantir representatividade equilibrada. “Se houver pluralidade, eu sou totalmente a favor. O Brasil cresce e fica mais consciente quando os debates são plurais e honestos”, declara, mas ressalta que a predominância de um único grupo político ou ideológico é um risco.

Governo defende diálogo e ‘governar a muitas mãos’

Por outro lado, o governo federal defende que a participação de ONGs e movimentos sociais fortalece a democracia e o diálogo. Em junho, durante a sétima reunião plenária do “Conselhão”, o presidente Lula descreveu o colegiado como “o verdadeiro retrato da nossa diversidade” e um meio de “governar a muitas mãos”. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT-CE), citou o órgão como fundamental na formulação de políticas como o programa Acredita e a Lei do Mercado de Carbono.

A principal mudança prática, caso a proposta avance, seria a dificuldade de extinguir ou alterar o “Conselhão”, que passaria de um órgão criado por decreto para uma instituição constitucional, exigindo novas emendas constitucionais aprovadas pelo Congresso. A oposição promete resistir à medida, antecipando um novo embate sobre os limites entre democracia representativa e participação social organizada.

O governo federal não respondeu a questionamentos sobre o impacto das mudanças no “Conselhão” até a publicação desta reportagem.

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