Eli Lilly investe alto em ‘veneno de sapo’ para tratar depressão
A farmacêutica Eli Lilly anunciou a aquisição da AtaiBeckley por US$ 2,8 bilhões (R$ 11,2 bilhões), um movimento que promete redefinir o mercado de saúde mental. A transação marca a entrada agressiva de uma gigante da indústria no promissor, mas controverso, campo dos psicodélicos, com foco em tratamentos para transtornos depressivos resistentes a terapias convencionais. O carro-chefe da AtaiBeckley é um spray nasal à base de 5-MeO-DMT, um composto psicoativo derivado da secreção de um sapo, popularmente conhecido como ‘veneno de sapo’. A empresa também desenvolve um filme bucal com dimetiltriptamina (DMT), o princípio ativo da ayahuasca.
A aquisição sinaliza um potencial ponto de virada para a pesquisa e o desenvolvimento de tratamentos psiquiátricos, focando em abordagens que visam a raiz biológica das doenças, em vez de apenas os sintomas. A Eli Lilly, ao se associar à AtaiBeckley, demonstra interesse em compostos que demonstram potencial para induzir neuroplasticidade, um conceito que tem ganhado força na neurociência. A FDA, agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, já concedeu o status de terapia promissora para o tratamento com 5-MeO-DMT, que se encontra em fase avançada de testes clínicos.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela imprensa especializada e comunicados da Eli Lilly.
Raízes nobres e ambições psicodélicas
A história da AtaiBeckley remonta à visão de Amanda Feilding, condessa de Wemyss e figura proeminente no movimento de legalização e pesquisa de psicodélicos. Em 1998, ela fundou a Beckley Foundation, inicialmente voltada para o avanço da consciência, e posteriormente expandiu suas operações com a criação da Beckley PsyTech em 2019. A empresa surfou na onda de startups psicodélicas, chamando a atenção do investidor Christian Angermayer, fundador da Atai Life Sciences. A fusão resultou na AtaiBeckley, que combinou o apelo aristocrático do nome Beckley com a força de mercado da Atai.
A ‘raiz biológica’ e o risco da elitização
O interesse da Eli Lilly pelos compostos psicodélicos, embora apresentados sob o codinome sanitizado de ‘neuroplastógenos’, desperta comparações com a revolução dos antidepressivos ISRS nos anos 1980. Na época, a fluoxetina e o escitalopram foram aclamados como panaceias para a depressão, atribuída a desequilíbrios bioquímicos. Agora, a neuroplasticidade emerge como a nova fronteira, com o 5-MeO-DMT e o DMT sendo vistos como potenciais restauradores dessa capacidade cerebral.
No entanto, a abordagem de encaixotar experiências psicodélicas transformadoras em intervalos de consulta levanta preocupações. A necessidade de recuperar o vultoso investimento bilionário pode resultar em tratamentos de alto custo, acessíveis apenas a uma elite. A ausência de um forte componente de psicoterapia para auxiliar na integração da experiência psicodélica também é um ponto crítico, podendo gerar a necessidade de aplicações recorrentes e, consequentemente, lucros maiores para a indústria farmacêutica. O futuro desses tratamentos, portanto, aponta para uma possível elitização do acesso à saúde mental.
