Uma nova análise científica deu um novo nome e um entendimento mais aprofundado a um fóssil de réptil descoberto há mais de um século em rochas que foram utilizadas na construção da Grande Esfinge de Gizé, no Egito. O espécime, datado de aproximadamente 48 milhões de anos, pertence a um antigo parente do gavial-indiano, um dos raros representantes atuais de um grupo de répteis que se assemelham a crocodilos e jacarés.
O recém-batizado *Herugavialis cairensis* é uma homenagem ao deus egípcio Hórus, associado à icônica estrutura monumental. A pesquisa, publicada na revista Royal Society Open Science, reexamina o material fóssil que, no final do século XIX, foi coletado pelo paleontólogo alemão Richard Markgraf e posteriormente estudado por Eberhard Fraas. A primeira descrição formal do fóssil ocorreu em 1927, quando o paleontólogo Lorenz Müller o nomeou *Tomistoma cairense*, devido a semelhanças anatômicas com o falso-gavial (*Tomistoma schlegelii*), encontrado no Sudeste Asiático.
O estudo atual envolveu uma equipe internacional de pesquisadores de instituições como a University College de Londres e a Universidade de Mansoura. Utilizando tomografia computadorizada, os cientistas puderam reconstruir partes do crânio original e outros fragmentos, incluindo mandíbula e focinho, e comparar a morfologia do *H. cairensis* com os gaviais modernos. Uma característica peculiar notada é a ausência da ponta do focinho, o osso pré-maxilar, tanto no fóssil quanto na Grande Esfinge, onde blocos de pedra com fósseis foram reutilizados.
Diversidade e Evolução dos Crocodiliformes
A análise detalhada revelou que o *Herugavialis cairensis* possui características distintas, como órbitas oculares elevadas e alongamento dos ossos lacrimais, que o diferenciam tanto do falso-gavial atual quanto de outras espécies fósseis. O estudo sugere que o animal é um representante antigo da linhagem do gavial-indiano, embora tenha habitado um ambiente marinho raso, diferente do rio Ganges onde vive o gavial moderno.
A diversidade de crocodiliformes, grupo que inclui crocodilos, jacarés e gaviais, era significativamente maior no passado. O registro fóssil demonstra a presença de mais de 40 espécies distribuídas pela África, Ásia, Europa e América do Norte. No Egito, além do *H. cairensis*, foram identificadas outras duas espécies distintas do Paleogeno: *Paratomistoma courti* e *Eogavialis africanum*. A pesquisa indica que essas espécies representam linhagens evolutivas separadas que ocuparam o norte do Egito em diferentes períodos, contribuindo para a compreensão da história biogeográfica dos gavioloides na região.
A extinção de linhagens de gavioloides mediterrâneos ocorreu com o resfriamento global e a redução do nível dos oceanos no final do Eoceno. Espécies posteriores encontradas na Europa, datadas do Mioceno, mostram linhagens distintas das egípcias. A redescrição do *Herugavialis cairensis* e a identificação de outras espécies egípcias ajudam a mapear a evolução e a diversificação desses répteis aquáticos em ambientes antigos.