A Etiópia, segundo país mais populoso da África, vê a escalada de tensões militares reacender o fantasma de uma guerra civil devastadora. Os combates entre as forças armadas federais e as autoridades da região de Tigré, no norte do país, intensificaram-se drasticamente nos últimos dias, provocando alarme internacional diante do receio de um conflito de maiores proporções. A disputa, que se arrasta desde 2020, já causou centenas de milhares de mortos e inúmeros relatos de atrocidades.
As hostilidades recentes são protagonizadas pela Força de Defesa Nacional da Etiópia, sediada na capital Adis Abeba, e pela Frente de Libertaçao do Povo do Tigré (FLPT). Em um movimento que sinaliza a complexidade do conflito, a FLPT formou uma coalizão com seis grupos armados opositores, denominada Aliança pela Sobrevivência, com o objetivo declarado de derrubar o primeiro-ministro Abiy Ahmed e reformar a Constituição etíope. A nova aliança conta com o apoio de combatentes das regiões vizinhas de Afar e Amhara, enquanto o governo federal busca alianças com facções dissidentes do Tigré.
Os confrontos atuais culminam meses de ataques de drones, embates localizados e retórica política acirrada. No primeiro semestre, a FLPT retomou o controle político de Tigré, com Debretsion Gebremichael reassumindo a presidência regional. A situação escalou no final de setembro, quando rebeldes do Tigré anunciaram a tomada de aeroportos sob controle federal em Mekelle, Axum e Shire, alegando ações defensivas contra uma suposta invasão com ataques de drones e artilharia vindos de Adis Abeba. Atualmente, forças aliadas ao governo avançam em direção a Mekelle, enquanto milícias da Aliança pela Sobrevivência avançam para o sul e leste, visando interromper a principal rota de comércio da Etiópia com Djibuti.
Atores Regionais e Interesses Cruzados
A Eritreia, país vizinho com um histórico de conflitos com a Etiópia, emerge como um ator de relevância incerta. Após uma reaproximação em 2020, que rendeu a Abiy Ahmed o Prêmio Nobel da Paz, a Eritreia combateu ao lado do governo federal contra Tigré, sendo acusada por grupos de direitos humanos de cometer atrocidades. Recentemente, a Eritreia aproximou-se de líderes regionais do Tigré, em parte devido à ambição etíope de obter acesso ao Mar Vermelho, perdido com a independência eritréia. A tensão entre os dois países aumentou a ponto de anunciarem o fechamento de embaixadas e a expulsão de diplomatas, com acusações mútuas de “atos de hostilidade”. Analistas ainda debatem se as forças eritreias se envolverão diretamente nos combates.
Outros países também manifestam interesse na região. O Egito, por exemplo, mantém laços com a Eritreia e tem criticado publicamente a Etiópia pela construção de uma represa no rio Nilo. Forças Sudanesas e a Arábia Saudita também figuram como aliados eritreus. Do lado etíope, os Emirados Árabes Unidos são um importante investidor e são acusados de apoiar grupos paramilitares no Sudão. Analistas alertam que um novo conflito na Etiópia pode se fundir à guerra civil no Sudão, criando uma zona de instabilidade com interesses de potências estrangeiras disputando influência através de forças aliadas.
Reação Internacional e Desafios da Mediação
A comunidade internacional tem reagido com apelos à mediação. Líderes mundiais, incluindo o Papa, pediram o fim das hostilidades. Seis senadores democratas dos Estados Unidos solicitaram a intervenção do Secretário de Estado. A União Africana nomeou o ex-presidente da Nigéria, Olusegun Obasanjo, para liderar iniciativas de mediação. No entanto, líderes do Tigré expressam desconfiança em relação à União Africana, sediada em Adis Abeba, acusando-a de favorecer o governo federal. Essa dinâmica dificulta a identificação de um mediador que goze da confiança de todas as partes envolvidas, aumentando a complexidade da busca por uma solução pacífica.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Reuters, G1 e BBC.
