Museu de Oxford devolve 62 fósseis ao Brasil em gesto de solidariedade após incêndio no Museu Nacional
Um importante acervo de fósseis brasileiros, que estava guardado no Museu de História Natural da Universidade de Oxford, no Reino Unido, está retornando ao Brasil. A doação de 62 exemplares é um gesto de solidariedade para ajudar a recompor o acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, devastado por um incêndio em setembro de 2018. O fogo destruiu cerca de 80% da coleção, um acervo inestimável para a ciência e a história do país.
A paleontóloga Emma Nicholls, gerente de coleções do museu britânico, expressou a comoção e a importância da iniciativa. “Foi algo que todos nós consideramos extremamente importante e que estamos com muita vontade de concretizar”, afirmou Nicholls. A decisão de doar os fósseis, que chegaram ao Reino Unido em duas levas nas décadas de 1970 e 1990, foi unânime entre os curadores de Oxford.
Os exemplares a serem enviados ao Brasil incluem uma variedade de formas de vida pré-histórica, como peixes preservados em rochas tridimensionais, insetos, algas e vestígios de animais extintos há milhões de anos, alguns mais antigos que os dinossauros. “Os espécimes estão num excelente estado de conservação e poderão ajudar a fazer muitas pesquisas sobre o passado dos lugares onde esses seres viveram”, explicou Nicholls. A expectativa é que os fósseis sejam enviados ao Brasil “assim que possível”. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela BBC News Brasil.
Critérios para a seleção dos fósseis
A escolha dos 62 fósseis a serem doados levou em consideração dois critérios principais. Primeiramente, foram priorizados os exemplares que não estão em uso ativo para pesquisas no museu britânico. Em segundo lugar, foram mantidos no Reino Unido os chamados “espécimes-tipo”, que servem como referência formal para descrições científicas e são cruciais para a replicabilidade de estudos acadêmicos.
“O que nós queremos é ajudar o Museu Nacional do Brasil, de uma forma singela e humilde”, declarou Nicholls, ressaltando que a contribuição de Oxford é uma pequena parte do esforço global de reconstrução. O objetivo é que as atenções permaneçam voltadas para a instituição brasileira e seu processo de recuperação.
Solidariedade global e reconstrução do Museu Nacional
O incêndio de 2018 representou uma perda colossal para o Museu Nacional, incluindo coleções de insetos com milhões de exemplares, coleções de etnologia e parte significativa do acervo egípcio. Segundo o zoólogo Ronaldo Fernandes, atual diretor do Museu Nacional, cerca de 85% do acervo foi perdido devido às chamas e ao colapso da estrutura do prédio.
Desde o desastre, o museu tem recebido um fluxo contínuo de apoio. Governos, instituições e cidadãos de diversas partes do mundo têm contribuído com doações, verbas e esforços diplomáticos para recuperar peças importantes. Entre as doações estão coleções particulares, como a de conchas e moluscos do pai do cantor Nando Reis, e objetos de exploradores que estiveram no Xingu no século XIX. Um exemplo de sucesso diplomático foi o retorno de um manto tupinambá, que estava sob a guarda do Museu Nacional da Dinamarca.
As investigações sobre as causas do incêndio apontaram uma falha elétrica como a hipótese mais provável, sem a identificação de responsabilidade criminal. O incidente ocorreu após anos de problemas de manutenção e falta de recursos, apesar dos alertas sobre as condições precárias do edifício histórico.
Um novo futuro para o Museu Nacional
Atualmente, o Museu Nacional trabalha em sua reconstrução e já reabriu algumas salas ao público. Entre os destaques estão o meteorito Bendegó, um símbolo de resiliência, e uma sala com instrumentos musicais históricos construídos com madeiras que sobreviveram ao incêndio. A fachada principal do Paço de São Cristóvão, antiga residência imperial, foi totalmente recuperada em 2024.
A expectativa é que o museu retome seu pleno funcionamento até o final de 2029. No entanto, a restauração das mais de 5.000 peças resgatadas das cinzas é um trabalho que demandará décadas e será concluído pelas futuras gerações. Fernandes expressou gratidão pela onda de solidariedade: “É a solidariedade, é a noção de que o museu é uma coisa importante, essencial para compreender o país e educar o povo.”
