EUA vs. Brasil: A Guerra do Etanol que Ameaça Tarifas e Impacta o Agro Nacional
EUA vs. Brasil: A Guerra do Etanol que Ameaça Tarifas e Impacta o Agro Nacional

EUA vs. Brasil: A Guerra do Etanol que Ameaça Tarifas e Impacta o Agro Nacional

EUA e Brasil travam disputa acirrada pelo mercado de etanol, com ameaça de tarifas e impactos estratégicos para o agronegócio brasileiro. A produção e o consumo de etanol, o biocombustível mais utilizado globalmente, são palco de um conflito comercial entre Brasil e Estados Unidos que se estende por décadas. O mais recente capítulo dessa disputa […]

Resumo

EUA e Brasil travam disputa acirrada pelo mercado de etanol, com ameaça de tarifas e impactos estratégicos para o agronegócio brasileiro.

A produção e o consumo de etanol, o biocombustível mais utilizado globalmente, são palco de um conflito comercial entre Brasil e Estados Unidos que se estende por décadas. O mais recente capítulo dessa disputa é a investigação da Seção 301, um mecanismo da legislação comercial americana que pode resultar na imposição de tarifas de 25% sobre o produto brasileiro.

O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) alega que o Brasil dificulta a entrada do biocombustível americano com uma taxa de 18%. Contudo, a indústria nacional rebate, afirmando que a taxação brasileira segue a Tarifa Externa Comum (TEC) e que os EUA, por sua vez, impõem barreiras ao açúcar brasileiro. Essa briga, intensificada a partir de 2017, vai além da economia, envolvendo política e lobbies poderosos.

A complexidade da disputa reside nas origens distintas das cadeias de produção de etanol em ambos os países. Conforme explica Daniel Vargas, professor de Economia e Direito da FGV, o mercado de biocombustíveis não surgiu espontaneamente, mas foi uma **”criação política”** com objetivos de diversificação energética e fomento à agricultura. Essa informação foi divulgada pelo portal G1.

Origens Distintas Impulsionam a Produção de Etanol

No Brasil, o etanol ganhou força com o Proálcool, lançado em 1975 como uma resposta ao choque do petróleo, visando substituir a gasolina pela cana-de-açúcar, um cultivo natural do país. Já nos EUA, o impulso inicial para o etanol veio da necessidade de melhorar a qualidade do ar, com forte influência do lobby agrícola. A Lei do Ar Limpo de 1970 e suas revisões posteriores abriram caminho para o uso do etanol de milho como aditivo na gasolina.

A expansão massiva da produção de etanol nos Estados Unidos ocorreu a partir de 2005, com o programa Renewable Fuel Standard (RFS), que tornou obrigatória a mistura de biocombustíveis na matriz de transportes. Essa política, aliada a pesados subsídios a fazendeiros do Cinturão do Milho, levou os EUA a superar o Brasil em produção a partir de 2006, liderando o mercado global desde então.

O Protecionismo Americano e a Barreira de US$ 0,54

Historicamente, os Estados Unidos mantiveram barreiras protecionistas. Desde os anos 1980, um subsídio de US$ 0,54 por galão incentivava a mistura de etanol à gasolina internamente, ao mesmo tempo que uma tarifa idêntica era imposta a produtos importados, como forma de proteger o mercado doméstico. Essa medida, que vigorou até 2011, foi um **símbolo da barreira americana** contra o etanol de cana brasileiro, impactando diretamente a cadeia produtiva nacional.

Embora o subsídio tenha sido extinto, o etanol brasileiro ainda enfrenta barreiras. A complexidade e burocracia para obter a classificação de “biocombustível avançado” junto à Agência de Proteção Ambiental (EPA) dos EUA, necessária para entrar sem taxas adicionais, funciona como um desestímulo. Na prática, essas barreiras alfandegárias podem chegar a **12,5% sobre o valor do produto** nos EUA.

A Taxação Brasileira de 2017 e a Mudança no Cenário

Até meados de 2017, o etanol de milho americano entrava livremente no Brasil. No entanto, um excesso de safra nos EUA naquele ano levou a uma “desova” do produto no mercado brasileiro a preços muito baixos. Como resposta, o governo brasileiro implementou uma cota anual de 600 milhões de litros isentos de impostos, com uma taxação de 20% sobre volumes excedentes. Essa medida é utilizada pelos americanos como justificativa para a investigação do USTR.

A dinâmica do mercado também mudou. O etanol americano, antes um complemento importante para suprir a demanda brasileira durante a entressafra da cana, perdeu essa função. O Brasil vivenciou uma **”minirrevolução do etanol de milho”**, que hoje representa 28% da produção nacional, tornando o país autossuficiente e menos dependente do produto importado.

Consumidores e Lobbies: A Força por Trás da Disputa

A disputa pelo etanol é acirrada também porque Brasil e Estados Unidos são os maiores consumidores mundiais do biocombustível. Essa interdependência gera pressão mútua: quando um país tem excesso de safra, busca vender para o outro. O professor Daniel Vargas destaca o **poderoso lobby setorial** em ambos os países, onde o mercado é altamente regulado e influenciado por interesses públicos e corporativos.

O lobby do Cinturão do Milho nos EUA, por exemplo, tem grande influência nas decisões de política externa americana, especialmente em anos eleitorais. No Brasil, programas como o “Combustível do Futuro” também refletem as demandas do setor sucroalcooleiro. Ambos os países discutem atualmente o aumento da mistura de etanol na gasolina, sinalizando a importância estratégica do biocombustível.

A “Guerra Verde” e a Contestações Brasileiras

A busca por novos mercados internacionais, como Índia, Japão, Europa e África, para etanol, SAF (combustível sustentável de aviação) e uso marítimo, intensifica a competição. A disputa também se estende para a arena científica e ambiental, com acusações mútuas sobre o impacto do uso da terra e a intensidade energética da produção. Pesquisadores americanos apontam a expansão agrícola brasileira sobre biomas sensíveis, enquanto o Brasil questiona o alto uso de energia fóssil e fertilizantes na produção de milho americana.

Entidades como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Bioenergia Brasil contestam as alegações do USTR. Elas afirmam que a tarifa brasileira segue a TEC do Mercosul e não é direcionada especificamente aos EUA. As entidades ressaltam que os Estados Unidos mantêm há décadas políticas protecionistas ao açúcar brasileiro, com tarifas proibitivas e cotas que limitam as exportações a um volume irrisório. “O etanol brasileiro é reconhecido internacionalmente como uma das soluções mais eficientes para a descarbonização dos transportes”, afirmam as entidades.

Tags:

Veja Também

Volkswagen considera corte de até 100 mil empregos para enfrentar concorrência chinesa e impulsionar eletrificação

Volkswagen considera corte de até 100 mil empregos para enfrentar concorrência chinesa e impulsionar eletrificação

Investigação sobre “Careca do INSS” e Lulinha trava na PF por falta de efetivo

Investigação sobre “Careca do INSS” e Lulinha trava na PF por falta de efetivo

Famílias venezuelanas processam Nicolás Maduro nos EUA por supostos assassinatos extrajudiciais

Famílias venezuelanas processam Nicolás Maduro nos EUA por supostos assassinatos extrajudiciais

Calor extremo na gravidez pode comprometer desenvolvimento de bebês, aponta pesquisa brasileira

Calor extremo na gravidez pode comprometer desenvolvimento de bebês, aponta pesquisa brasileira

A Curva Normal: Da Altura Brasileira à História da Estatística

A Curva Normal: Da Altura Brasileira à História da Estatística