Descoberta em múmias chilenas revela a chegada do vírus da varíola às Américas
Cientistas anunciaram um marco na compreensão da história das doenças nas Américas: a primeira evidência molecular direta do vírus da varíola em corpos mumificados do século XVI. A descoberta, detalhada na revista Science, recuperou o DNA do patógeno de duas múmias chilenas, fornecendo um vislumbre concreto da devastadora chegada da doença ao continente.
Os corpos, de uma mulher de 35 anos e um homem de 20 anos, foram encontrados mumificados naturalmente em um sítio próximo à costa do Pacífico, no Chile, e datam do século XVI. A análise dos genomas virais revelou que o vírus pertencia a uma linhagem extinta, posicionada evolutivamente entre cepas europeias medievais e as que circularam em séculos posteriores. Essa descoberta corrobora a teoria de que a varíola foi introduzida nas Américas por colonizadores europeus, que chegaram ao continente em 1492.
As populações indígenas americanas não possuíam imunidade natural contra a varíola, o que levou a surtos epidêmicos com consequências catastróficas. O primeiro surto documentado ocorreu em Hispaniola em 1518, pouco após a colonização espanhola. A varíola, uma das doenças infecciosas mais letais da história, é estimada por ter matado centenas de milhões de pessoas globalmente antes de sua erradicação em 1980. Nas Américas, acredita-se que a doença, juntamente com outras virais, tenha dizimado até 90% da população indígena, facilitando a conquista de impérios como o Asteca e o Inca.
A varíola como agente de colapso e conquista
O impacto da varíola nas Américas transcendeu a mortalidade. A rápida disseminação e os sintomas severos, que incluíam febres altas, pústulas hemorrágicas e desfiguração, abalaram profundamente as crenças espirituais dos povos nativos. Muitos passaram a acreditar que seus deuses os haviam abandonado ou que eram impotentes diante das forças que auxiliavam os invasores espanhóis. Essa perda de moral e a dizimação populacional foram fatores cruciais para o colapso de civilizações inteiras.
Os genomas virais recuperados das duas múmias chilenas eram notavelmente semelhantes, sugerindo que ambas foram infectadas pela mesma cepa viral durante o mesmo período de surto. A pesquisa também indicou que o vírus da varíola passou por um longo processo de evolução genética até o século XVI. Curiosamente, a taxa de evolução parece ter desacelerado durante as grandes epidemias pós-colonização, recuperando fôlego após a introdução da primeira vacina em 1796. Isso sugere que, ao encontrar populações sem imunidade, o vírus já possuía uma capacidade de disseminação altamente eficiente, necessitando de pouca adaptação adicional.
Um legado de erradicação e memória científica
Os corpos das duas indivíduos foram mumificados naturalmente e sepultados em fardos, envoltos em tecidos de camelídeos e acompanhados de artefatos funerários. A antropóloga Constanza de la Fuente Castro, da Universidade do Chile e coautora do estudo, ressaltou que a mumificação não foi artificial, diferenciando-a de práticas como as egípcias, e que o costume de sepultamento em fardos é anterior aos Incas.
O último caso de varíola de ocorrência natural foi registrado na Somália em 1977. Três anos depois, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a varíola como a primeira e única doença infecciosa humana erradicada globalmente. Esta nova descoberta científica, ao desenterrar o DNA de um inimigo histórico em múmias antigas, oferece uma perspectiva molecular única sobre um dos capítulos mais sombrios e transformadores da história humana.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Reuters.
