Nova fronteira da biodiversidade marinha brasileira é mapeada com DNA ambiental
Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) desvendaram um universo de vida subaquática até então subestimado, utilizando a revolucionária técnica de DNA ambiental (eDNA). Em bancos de rodolitos, formações marinhas compostas por algas calcárias, foram identificadas aproximadamente 450 espécies de animais e algas. As amostras coletadas em Abrolhos (Bahia) e na costa da Ilha da Queimada Grande (São Paulo) revelaram uma riqueza biológica surpreendente, com a descoberta de 21 novas ocorrências para a costa brasileira, sendo 10 de invertebrados e 11 de algas.
O estudo, publicado na revista científica Biological Conservation, utilizou o método de metabarcoding, que permite identificar organismos a partir de fragmentos de material genético presentes no ambiente. Essa abordagem, combinada com a análise morfológica tradicional, identificou mais de 1.800 sequências genéticas nos rodolitos, representando cerca de 1% de toda a biodiversidade marinha conhecida. A descoberta reforça o potencial de novos estudos em encontrar ainda mais organismos desconhecidos em ecossistemas brasileiros.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Unifesp.
A “Amazônia Cor-de-Rosa” em Risco
Os rodolitos, descritos pelos autores como a “amazônia cor-de-rosa” devido à sua coloração avermelhada e ao seu imenso potencial biodiverso, formam recifes naturais que servem de abrigo, alimento e local de reprodução para inúmeras espécies marinhas. Essas estruturas, semelhantes a pequenas pedras arredondadas, são formadas pelo acúmulo de carbonato de cálcio ao longo do crescimento das algas vermelhas.
Contudo, esses valiosos ecossistemas enfrentam uma ameaça significativa: a exploração de carbonato de cálcio. O Brasil se destaca como um dos poucos países, senão o único, que ainda realiza a mineração desses bancos de rodolitos. O coordenador da pesquisa, Guilherme Pereira-Filho, alerta que a atividade predatória está destruindo um ambiente que concentra uma parcela considerável da biodiversidade marinha mundial sem que se tenha um conhecimento completo de sua riqueza.
Metabarcoding: Uma Nova Lente para a Vida Marinha
A técnica de metabarcoding, aplicada pela primeira vez em rodolitos em uma pesquisa mundial, consiste em analisar todas as sequências genéticas presentes em uma amostra ambiental. Essas sequências são comparadas com grandes bancos de dados internacionais para identificar os grupos de organismos aos quais pertencem. O método não depende da observação direta dos animais ou plantas, o que amplia a capacidade de detecção de espécies, especialmente as mais raras ou de difícil visualização.
Para o estudo, foram coletadas amostras em diferentes profundidades (entre 7 e 25 metros) em 2015 e 2016. A análise genética do gene COI (citocromo oxidase c), um marcador comum na identificação de espécies, revelou 1.054 sequências únicas para animais invertebrados e 783 para macroalgas. A diversidade encontrada é considerada apenas uma fração do que realmente existe nesses ambientes, pois nem todas as sequências genéticas identificadas puderam ser associadas a espécies conhecidas.
A Urgência da Conservação e do Conhecimento
A descoberta de novas espécies e táxons evidencia o quão pouco se conhece sobre a biodiversidade marinha brasileira. Esses organismos podem desempenhar papéis ecológicos cruciais, fornecer serviços ecossistêmicos vitais e até mesmo conter moléculas com potencial para bioprospecção, ou seja, a busca por novos compostos com aplicações farmacêuticas ou industriais.
Pereira-Filho enfatiza a necessidade urgente de mapear a diversidade dos rodolitos e de criar legislações específicas para a proteção desses ecossistemas. “Estamos literalmente triturando um ambiente que pode concentrar pelo menos 1% da biodiversidade marinha mundial sem sequer termos conhecimento de toda essa riqueza”, afirma o pesquisador. Ele conclui que a produção de conhecimento é o primeiro passo essencial para que a sociedade possa debater e implementar formas eficazes de conservação desses ambientes únicos.
