Ciência avança na busca por novas armas contra o HPV e cânceres associados
Ciência avança na busca por novas armas contra o HPV e cânceres associados

Ciência avança na busca por novas armas contra o HPV e cânceres associados

Avanços na prevenção e detecção de doenças causadas pelo HPV O papilomavírus humano (HPV) é uma infecção extremamente comum, com cerca de 80% das pessoas tendo contato com o vírus ao longo da vida. Embora na maioria dos casos a infecção seja transitória e eliminada pelo próprio organismo, a persistência de alguns tipos de HPV, […]

Resumo

Avanços na prevenção e detecção de doenças causadas pelo HPV

O papilomavírus humano (HPV) é uma infecção extremamente comum, com cerca de 80% das pessoas tendo contato com o vírus ao longo da vida. Embora na maioria dos casos a infecção seja transitória e eliminada pelo próprio organismo, a persistência de alguns tipos de HPV, classificados como de alto risco, pode desencadear alterações celulares que, com o tempo, evoluem para câncer. São 12 os tipos de HPV considerados oncogênicos, associados a seis tipos de câncer: colo do útero, ânus, pênis, vulva, vagina e orofaringe. Enquanto estratégias de prevenção e detecção já existem, a comunidade científica trabalha ativamente para ampliá-las e torná-las mais eficazes.

A vacinação representa a principal ferramenta de prevenção primária contra os tipos de HPV oncogênicos. No Sistema Único de Saúde (SUS), a vacina quadrivalente protege contra os quatro tipos mais comuns do vírus, enquanto a versão nonavalente, disponível na rede privada, adiciona a cobertura para outros cinco tipos de alto risco. Estudos no Brasil indicam que a vacinação quadrivalente em jovens reduziu significativamente a prevalência dos tipos cobertos, embora não tenha interrompido completamente a circulação do vírus. Essa observação impulsiona a pesquisa por imunizantes que abranjam um número maior de cepas virais.

Na vanguarda dessa expansão, uma vacina 11-valente está em fase final de testes na China, com potencial para incluir tipos de HPV prevalentes em regiões como a África, que não são cobertos pelas vacinas atuais. A bióloga Luísa Lina Villa, professora da Faculdade de Medicina da USP, destaca a importância dessa ampliação, pois alguns tipos de HPV causadores de câncer em países africanos não estão contemplados nos imunizantes disponíveis. Além da vacinação, a pesquisa foca em aprimorar os métodos de rastreamento, buscando identificar precocemente sinais de doença antes mesmo do surgimento de sintomas.

Desafios na detecção de cânceres associados ao HPV

No que diz respeito ao câncer do colo do útero, o teste molecular RT-PCR é o principal método de rastreamento no SUS, capaz de detectar o DNA de HPV de alto risco. A identificação do vírus leva a exames adicionais para a busca de lesões celulares. Contudo, para outros tipos de câncer, como o de orofaringe, onde cerca de 70% dos casos são atribuídos ao HPV, o rastreamento apresenta desafios maiores. As regiões afetadas, como o fundo da garganta e a base da língua, dificultam a visualização direta de lesões.

O teste molecular tradicional para HPV não é ideal para o câncer de orofaringe devido à alta prevalência do vírus na população e à sua natureza frequentemente passageira na cavidade oral. Isso poderia levar a um alto número de resultados falso-positivos, indicando infecção em indivíduos que não desenvolverão a doença. Por isso, cientistas buscam desenvolver testes capazes de detectar o RNA mensageiro do HPV na saliva. Segundo Villa, a presença do RNA indicaria que o vírus está ativo, produzindo proteínas que podem iniciar o processo de transformação celular e, consequentemente, o desenvolvimento do câncer.

Novas abordagens terapêuticas e vacinas de combate

Quando as lesões causadas pelo HPV progridem para câncer, os tratamentos convencionais incluem cirurgia, radioterapia e quimioterapia. Uma linha promissora de pesquisa foca em utilizar o próprio sistema imunológico do paciente para combater as células alteradas pelo vírus, através das chamadas vacinas terapêuticas. Ao contrário das vacinas preventivas, que visam impedir a infecção, as vacinas terapêuticas têm o objetivo de ativar as defesas do corpo para reconhecer e eliminar células infectadas ou tumorais.

A médica Luana Raposo de Melo, sócia fundadora da ImunoTera Soluções Terapêuticas, explica que a vacina terapêutica busca tratar uma doença já existente e também prevenir a recorrência de tumores. Diversas pesquisas estão em andamento para desenvolver vacinas que reconheçam células já afetadas pelo HPV. Um estudo em andamento, conduzido pela ImunoTera em parceria com a USP e o Hospital das Clínicas, testou essa tecnologia em mulheres com lesões pré-cancerosas de alto grau. Os resultados preliminares mostraram que 55% das participantes apresentaram regressão das lesões, indicando um potencial benefício da estratégia. Embora promissor, o estudo é considerado uma prova de conceito, necessitando de novas pesquisas para confirmar a eficácia clínica.

As informações foram reunidas a partir de reportagens produzidas durante o 11º Programa de Treinamento em Jornalismo de Saúde da Folha, com apoio do Einstein Hospital Israelita e do Laboratório Roche.

Tags:

Veja Também

SUS realiza transporte aéreo inédito de sangue raro para salvar paciente em Minas Gerais

SUS realiza transporte aéreo inédito de sangue raro para salvar paciente em Minas Gerais

STF adota tom moderado após avanço da direita e teme impeachment

STF adota tom moderado após avanço da direita e teme impeachment

TSE suspende site que oferecia criptomoedas em troca de apoio a Flávio Bolsonaro

TSE suspende site que oferecia criptomoedas em troca de apoio a Flávio Bolsonaro

Inclusão escolar: Crianças com osteogênese imperfeita podem participar de atividades com adaptações

Inclusão escolar: Crianças com osteogênese imperfeita podem participar de atividades com adaptações

Nunes Marques: Impeachment de ministros do STF é decisão política exclusiva do Senado

Nunes Marques: Impeachment de ministros do STF é decisão política exclusiva do Senado