A nação africana, com seu povo hospitaleiro e alunos dedicados, possui as qualidades intrínsecas para o sucesso, mas a escassez de oportunidades freia seu avanço.
A torcida pela seleção de Cabo Verde em um hipotético confronto contra grandes potências do futebol, como a Argentina de Messi, reflete um desejo nacional de ver um time africano triunfar. No entanto, para além da paixão esportiva, a realidade do país insular revela um cenário de desafios complexos, marcado por uma gritante falta de oportunidades que contrasta com as notáveis ‘permitências’ de seu povo e de seu ecossistema.
Durante uma semana em Praia, capital de Cabo Verde, ministrando aulas de pós-graduação, a percepção da escassez de oportunidades se tornou palpável. Essa realidade, embora triste, é um contraponto à beleza natural e à hospitalidade genuína do povo cabo-verdiano. A resiliência se manifesta na capacidade de sorrir apesar das adversidades, mas a busca por uma vida melhor é uma luta diária, especialmente para vizinhos continentais em situação ainda mais precária.
A análise de ‘permitências’, termo traduzido do inglês ‘affordance’ para descrever propriedades intrínsecas de um sistema que conferem novas possibilidades, revela o paradoxo cabo-verdiano. Em termos biológicos, a ausência de parede celular em células animais, por exemplo, é uma ‘permitência’ para a formação de neurônios e sistemas nervosos complexos, permitindo o desenvolvimento de cérebros capazes de inteligência e comportamento flexível. Cabo Verde, assim como seus alunos, possui essas ‘permitências’ em abundância.
Os estudantes cabo-verdianos, assim como os de outros países africanos, demonstram uma diligência e um ímpeto admiráveis em sala de aula, respondendo prontamente a questionamentos e exibindo uma sede de conhecimento que, nos Estados Unidos, muitas vezes requer estímulos artificiais. Eles possuem as ‘permitências’ que definem um cientista: curiosidade, vontade e iniciativa. O que lhes falta, contudo, são as oportunidades para que essas qualidades floresçam.
Oportunidades limitadas em um ambiente desafiador
A energia, recurso essencial para a vida, é um dos maiores gargalos em Cabo Verde. Fora dos breves meses de chuva, o solo das ilhas, árido e compacto, limita o cultivo a áreas restritas, como o fundo de vales, produzindo principalmente bananas, mamões e cenouras. A vida fora dos centros urbanos, como na ilha de Santiago, beira a miséria, com animais domésticos vivendo em condições precárias. Mesmo os investimentos externos, como os que se refletem em mercados com nomes chineses e a construção de infraestrutura, parecem incertos, como evidenciado por construções inacabadas.
Apesar das dificuldades, a conquista da vaga na Copa do Mundo pela seleção de futebol, os ‘tubarões azuis’, é um símbolo poderoso do potencial cabo-verdiano. Essa participação representa a concretização de uma ‘permitência’ – a capacidade de competir em alto nível – que, com esforço e dedicação, se transformou em uma oportunidade de glória. Para muitos no país, essa conquista serve de inspiração e reforça a esperança de que, com mais oportunidades, o futuro de Cabo Verde pode ser tão promissor quanto sua gente.
As informações foram reunidas a partir de relatos de vivência e observação direta em Praia, Cabo Verde, complementadas por referências a conceitos científicos sobre a evolução cerebral e a importância das ‘permitências’ para o desenvolvimento de sistemas complexos.
