Brasileiro é premiado com Ig Nobel por estudo inusitado com jararacas
O Brasil volta a marcar presença no Ig Nobel, premiação que celebra pesquisas científicas surpreendentes e, muitas vezes, hilárias. Desta vez, o reconhecimento veio na categoria Biologia para um estudo que envolveu mais de 40 mil “pisadelas” em jararacas (Bothrops jararaca), com o objetivo de investigar os fatores que levam a serpente a picar um humano.
A pesquisa, conduzida pelos cientistas João Miguel Alves Nunes, Adriano Fellone, Selma Maria Almeida-Santos, Carlos Roberto de Medeiros, Ivan Sazima e Otavio Augusto Vuolo Marques, consistiu em tocar levemente em diferentes partes das cobras, em diversas condições de temperatura e horários do dia, utilizando uma bota com proteção. O intuito era simular a aproximação humana e analisar a reação defensiva dos animais.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela premiação Ig Nobel e reportagens sobre o tema.
Controvérsias e retratação do estudo
Apesar do reconhecimento internacional, o estudo enfrentou desafios. O artigo original foi retratado pela revista Scientific Reports, um processo que invalida os achados científicos. Segundo João Miguel Alves Nunes, um dos pesquisadores, a retratação ocorreu em parte por uma questão semântica, onde o termo “pisada” deveria ser interpretado estritamente como “tocar levemente com o pé”.
Outro ponto de discordância foi o desenho do estudo. Inicialmente, a proposta envolvia o uso de filhotes de serpentes e um gancho para estimulação, mas o comitê de ética do Butantan não aprovou. Os pesquisadores optaram pela bota protetora para garantir a segurança tanto do humano quanto dos animais, alegando que o gancho poderia ferir as cobras durante o bote. Nunes defende que o método do pé foi uma tentativa de tornar o estímulo mais realista, comparando-o à aproximação de um ser humano.
Os autores do estudo contestam a retratação, apontando erros burocráticos e afirmando que os dados coletados são corretos e que não houve plágio ou falseamento de informações. Especialistas da área também expressaram descontentamento com a decisão da revista, considerando-a exagerada.
Experiências pessoais e o significado do Ig Nobel
Curiosamente, João Miguel Alves Nunes foi afastado do projeto após ser picado quatro vezes por jararacas e sofrer reações alérgicas ao veneno e ao soro antiofídico. Ele explica que, por sua linha de pesquisa focar em comportamento defensivo, a exposição ao risco era inerente à irritação das serpentes.
O prêmio Ig Nobel, segundo Nunes, serve como uma coroação para o trabalho realizado e um ponto final em sua experiência com as jararacas. Atualmente, ele dedica-se a pesquisas com aranhas e escorpiões, consideradas mais tranquilas de lidar.
A cerimônia de entrega do Ig Nobel é conhecida por seu caráter lúdico, com troféus inusitados, como um pé humano com cogumelos, e a tradicional chuva de aviões de papel. Diferente do prêmio Nobel, que oferece medalha de ouro e dinheiro, os ganhadores do Ig Nobel recebem uma cédula de dez trilhões de dólares do Zimbábue. A premiação, apesar do humor, visa homenagear realizações que provocam riso e reflexão, e já teve ganhadores que, posteriormente, conquistaram o Nobel.
Outros vencedores do Ig Nobel 2023
Na edição deste ano, outras pesquisas notáveis foram premiadas. O Ig Nobel de Economia foi para um estudo sobre a propensão de pessoas de classes socioeconômicas altas a se envolverem em comportamentos antiéticos, como pegar doces destinados a crianças. O prêmio da Paz reconheceu uma pesquisa sobre como valorizamos amigos que são cruéis com pessoas de quem não gostamos. Na área da Medicina, um estudo aerodinâmico sobre como assoar o nariz ganhou destaque. Já o prêmio de Olfato foi concedido a cientistas que investigaram a percepção olfativa de pais para bebês e adolescentes.
A cerimônia de premiação, que tradicionalmente ocorria nos Estados Unidos, foi realizada em Zurique, na Suíça, indicando uma possível nova sede europeia para o evento a cada dois anos.
