A alcunha de “país do futebol” sempre foi um sinônimo de orgulho para o Brasil. Mas o que essa denominação realmente significa em um cenário esportivo global em constante transformação? A resposta parece ser multifacetada, envolvendo paixão, conquistas e a qualidade do jogo apresentado.
A intensidade com que os brasileiros vivem o futebol é inegável. Seja nas ruas, nas rodas de conversa ou no acompanhamento das competições, a paixão pelo esporte parece estar intrinsecamente ligada à identidade nacional. No quesito conquistas, o Brasil se mantém como o único pentacampeão mundial, um feito que solidificou sua hegemonia por décadas. No entanto, a cada Copa do Mundo que passa sem o título, a sensação é de que a “era de ouro” se distancia cada vez mais, alimentando um debate sobre a sustentabilidade dessa autoproclamação.
A análise histórica revela um quadro complexo. Até 1970, o Brasil já acumulava três títulos mundiais, além de um vice-campeonato em 1950. Nas 14 Copas seguintes (56 anos), a seleção brasileira conquistou mais dois títulos, alcançou seis semifinais e disputou três finais. Contudo, nesse mesmo período, seleções como Argentina e Alemanha também celebraram três títulos cada, enquanto Itália, Espanha e França adicionaram dois troféus às suas coleções. Em termos de semifinais, Alemanha e França superam o Brasil, com o país sul-americano empatado com a Argentina.
A queda de desempenho recente
O desempenho nas últimas edições da Copa do Mundo reforça a preocupação. Nas seis edições mais recentes, o Brasil atingiu a semifinal apenas uma vez, marcada pelo fatídico 7 a 1 em 2014. Nesse recorte, a França lidera com quatro semifinais, seguida por Argentina e Alemanha com três. Espanha, Croácia, Inglaterra e Holanda chegaram duas vezes à semifinal, enquanto Itália, Marrocos, Portugal, Uruguai e Bélgica alcançaram o feito uma vez, com a diferença de que Itália e Uruguai, em alguns desses casos, seguiram adiante para conquistar o título.
Esse cenário levanta questionamentos sobre a manutenção do status de “país do futebol”. Embora o retrospecto histórico ainda seja robusto, as duas últimas décadas indicam dificuldades em competir em alto nível contra seleções consideradas “médias”, e o último meio século mostra o Brasil empatado ou atrás de potências tradicionais e emergentes. A Espanha, por exemplo, após consolidar um estilo de jogo baseado na posse de bola e no aproveitamento das características físicas de seus atletas, transformou seu futebol, passando de um título europeu até 2006 para três Eurocopas e duas Copas do Mundo.
Projetos e talentos individuais
A França apresenta um modelo de formação de base que integra o desenvolvimento de fundamentos com as características do “futebol de rua” das periferias, maximizando o talento individual. A Argentina, por outro lado, vive um fenômeno particular com o surgimento de talentos excepcionais como Maradona e Messi, que, apesar da ausência de um projeto organizado, impulsionaram o país a resultados expressivos no período.
Diante desse quadro, as perguntas se tornam mais frequentes do que as respostas: por que o Brasil, que antes dominava, agora enfrenta dificuldades? Qual o motivo do desempenho semelhante ao de seleções medianas nas últimas décadas? Sem encontrar as razões para essa mudança, a solução para os problemas se torna ainda mais distante. A questão que ecoa é: somos, ou fomos, o país do futebol?
