Boxe para Idosas: Força, Equilíbrio e Autoestima em Movimento no Bixiga
Boxe para Idosas: Força, Equilíbrio e Autoestima em Movimento no Bixiga

Boxe para Idosas: Força, Equilíbrio e Autoestima em Movimento no Bixiga

No coração do Bixiga, em São Paulo, o som ritmado de socos ecoa em uma academia cultural, mas o que se desenrola ali foge do comum. Mulheres com mais de 70 anos, munidas de luvas e determinação, trocam a rotina sedentária pela prática do boxe. A iniciativa, batizada de ‘Geração Nocaute’, oferecida gratuitamente pela Associação […]

Resumo

No coração do Bixiga, em São Paulo, o som ritmado de socos ecoa em uma academia cultural, mas o que se desenrola ali foge do comum. Mulheres com mais de 70 anos, munidas de luvas e determinação, trocam a rotina sedentária pela prática do boxe. A iniciativa, batizada de ‘Geração Nocaute’, oferecida gratuitamente pela Associação de Mulheres Unidos Venceremos (Amuv) em parceria com a Casa Mestre Ananias, tem se mostrado uma poderosa ferramenta de socialização, fortalecimento físico e elevação da autoestima para a população idosa do bairro, frequentemente invisibilizada.

A ideia surgiu da percepção do professor Wellinton Souza de que, apesar de ser uma área central e movimentada, o Bixiga abriga uma parcela significativa de idosos que, por diversos motivos, não circulam ativamente pelas ruas. Ao ser convidado pela Amuv para desenvolver um projeto voltado a essa faixa etária, Souza realizou um levantamento informal e identificou a solidão e a falta de mobilidade como as principais queixas. Foi em espaços como o Núcleo de Convivência de Idosos da Paróquia Nossa Senhora da Achiropita que o projeto encontrou suas primeiras alunas, como Maria Alaíde, de 73 anos, conhecida como dona Azul.

“Mudou tudo na minha vida”, declara dona Azul, que há mais de um ano frequenta as aulas duas vezes por semana. Antes, a ideia de aprender a dar um soco parecia impensável. Hoje, ela relata sentir-se “outra mulher”, com mais força, coragem e ânimo. A prática regular do boxe tem trazido benefícios palpáveis, incluindo o alívio de dores crônicas associadas à artrite e artrose, além de melhorar a coordenação motora e o equilíbrio. “Nas mãos, os dedos estavam ficando tortos. Já não estão mais. Tem um defeitozinho, mas é menos”, comemora.

Benefícios que Vão Além do Ringue

Wellinton Souza observa que os ganhos se estendem a todas as alunas. Problemas comuns do envelhecimento, como dificuldade para agachar, levantar ou andar, têm sido amenizados. O boxe, por sua natureza, exige movimentos que desafiam o corpo, forçando o cérebro a memorizar sequências e ativando partes do corpo que muitas vezes são negligenciadas. Essa complexidade de movimentos, segundo o professor, promove um maior entendimento do próprio corpo, melhorando o alongamento, a postura e a consciência corporal.

Rondinei Silva Lima, coordenador do Grupo de Interesse em Atividade Física e Longevidade da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), corrobora a visão. Ele explica que o boxe pode melhorar o condicionamento cardiovascular, a agilidade e a força muscular, aptidões que tendem a diminuir com o avançar da idade. Lima, que também aplica o esporte em pacientes com Parkinson, destaca que o boxe é considerado uma atividade completa e que seus benefícios se estendem à saúde mental.

“As aulas coletivas combatem o isolamento social, comum no envelhecimento, e geram senso de pertencimento”, afirma Lima. Ele acrescenta que a melhora no condicionamento físico permite que as idosas realizem tarefas cotidianas com mais autonomia, o que impacta positivamente o estado psicológico. A participação em um campeonato local, em fevereiro, elevou ainda mais a confiança das alunas, que se sentiram capazes de enfrentar desafios e demonstrar o aprendizado.

A Importância da Preparação e do Cuidado

Apesar dos inúmeros benefícios, a prática de atividades físicas intensas, como o boxe, exige cautela. Lima ressalta a importância de uma avaliação médica prévia, idealmente com profissionais de educação física ou gerontologia, para identificar riscos, especialmente os cardiovasculares. O entusiasmo gerado pela prática pode levar a uma intensidade elevada, com consequente aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial.

No caso do ‘Geração Nocaute’, o projeto opera com um número limitado de 15 alunas por vez, devido a restrições de espaço e verba. O professor Wellinton Souza dedica seu tempo de forma voluntária, assim como a Casa Mestre Ananias cede o espaço. Essa estrutura colaborativa permite que a iniciativa continue a oferecer um ambiente seguro e acolhedor, onde mulheres como dona Azul redescobrem sua força e vitalidade, provando que nunca é tarde para começar um novo capítulo, repleto de movimento e autoconfiança.

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