A escritora brasileira Ana Paula Maia tem se destacado no cenário literário internacional, mas sua obra e postura geram debates sobre identidade e representatividade.
Ana Paula Maia, escritora brasileira de 48 anos, nascida em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, tem chamado a atenção por sua obra singular e por sua recusa em se encaixar em discursos identitários. Enquanto seu romance “Assim na terra como embaixo da terra” a levou à final do prestigioso International Booker Prize, no Brasil, o debate em torno de seu trabalho tem se concentrado mais em suas declarações do que em suas conquistas literárias. A autora define sua escrita como “terror”, explorando temas sombrios e universais que, segundo ela, ressoam melhor em um “mundinho esquisito” que transcende fronteiras geográficas e identitárias.
A distinção internacional contrasta com o reconhecimento mais modesto em seu país de origem, onde seu público é pequeno e fiel. Enquanto na Alemanha “A guerra dos bastardos” foi aclamado como um dos melhores romances noir do ano, e na Inglaterra “Assim na terra como embaixo da terra” a colocou entre os finalistas do Booker, no Brasil, a repercussão recente centrou-se em uma entrevista onde Maia declarou que em sua obra “não tem questão identitária”. Essa afirmação provocou reações, especialmente em discussões sobre representatividade no mercado editorial.
A obra de Ana Paula Maia, marcada por um estilo direto e pela exploração de sistemas de poder, difere de autores que intencionalmente trazem a identidade para o centro de suas narrativas. Sua recusa em ser definida por recortes como gênero, raça ou origem geográfica a coloca em uma posição provocativa dentro do debate literário contemporâneo. A escritora prefere o ambiente onde “você só precisa ser bom”, um contraste com a necessidade de mediações que, segundo ela, muitas vezes cercam autoras premiadas no exterior.
O universo sombrio e a fuga de rótulos
“Assim na terra como embaixo da terra” se passa em uma colônia penal isolada, um local onde a violência é parte intrínseca da história, remetendo a um passado de tortura e morte. O romance explora a brutalidade de forma contida, com uma prosa seca e precisa que conquistou o júri do Booker Prize, descrito como uma “novela brutal, assombrosa e hipnótica”. A obra não se propõe a ser um panfleto ou um veículo de pauta identitária, mas sim uma imersão em temas universais como poder, violência e a condição humana, através de personagens definidos por suas ações e funções, e não por suas identidades.
A escritora, que se organiza em torno de homens definidos pelo que fazem – atordoadores de gado, cremadores de defuntos –, constrói um universo onde o sangue derramado não tem cor de pele nem sotaque, mas a marca da função de quem mata. A colônia penal sem nome e sem coordenadas geográficas é a representação de um Brasil que, segundo Maia, é reconhecível pela crueldade e pelo descaso, mais do que por características locais específicas. Essa abordagem a distancia de autores que, como Itamar Vieira Junior, também finalista do Booker Prize, lidam diretamente com o passado escravista e a identidade negra em suas obras, embora ambos compartilhem um certo incômodo com a tutela de seus rótulos.
Debate identitário e a forma literária
A declaração de Ana Paula Maia sobre a ausência de “questão identitária” em sua obra gerou um debate acalorado, especialmente com vozes como a do escritor Ale Santos, que apontou a disparidade no tratamento de gêneros como horror e ficção científica quando assinados por autores negros. A ironia reside no fato de a autora ser uma mulher negra da Baixada Fluminense, que conscientemente recusa o inventário identitário como chave de leitura para sua obra. Essa recusa, para alguns, dificulta sua inserção em um mercado que tende a categorizar e buscar narrativas específicas para autores de grupos minorizados.
O debate se aprofundou com críticas à obra de Itamar Vieira Junior, acusando “Torto Arado” de ser um “produto de mercado” que privilegia o conteúdo em detrimento da forma. Enquanto Vieira Junior defende o direito à memória e critica a limitação de sua obra a uma chave identitária, Maia se posiciona em um extremo oposto, com livros onde a identidade não é tema nem protagonista. Críticos como Eduardo Cesar Maia ressaltam a importância de unir forma e ideia, criticando a tese de que certos autores “não são literatura” e defendendo que pensar e exprimir são atividades indissociáveis.
Ana Paula Maia, com sua prosa concisa e focada na forma, desarma essa dicotomia. Sua conquista no Booker Prize evidencia que a excelência formal e a força narrativa podem transcender os debates identitários. A escritora, que revela adoecer após concluir cada livro, prepara seu décimo romance, “O tenebroso brilho do sol”, ambientado no Rio Grande do Sul. Resta a pergunta que paira no ar: por que o lugar onde “basta ser bom” continua sendo, para uma autora que não pretende morar fora, qualquer um, menos o Brasil sobre o qual ela escreve?
