Açúcar como motor da evolução humana
Por décadas, a narrativa predominante sobre a evolução humana tem enfatizado o papel crucial da proteína e da gordura de origem animal na expansão do cérebro de nossos ancestrais. Contudo, um novo estudo publicado na revista Science propõe uma perspectiva que inclui o açúcar como um componente igualmente fundamental nessa trajetória evolutiva. A equipe de paleoantropólogos, liderada por Jennie Brand-Miller da Universidade de Sydney, na Austrália, cunhou o acrônimo “SWEET” (Sugars Were Essential for Evolution Too – Açúcares Foram Essenciais para a Evolução Também) para condensar sua ideia.
A pesquisa analisou o consumo de açúcares em primatas não humanos e populações humanas tradicionais, além de investigar o metabolismo de carboidratos em nossa espécie e parentes. A conclusão aponta que a busca por fontes de açúcar na dieta foi um fator-chave para o desenvolvimento do cérebro humano ao longo de milhões de anos. O cérebro, especialmente em fases críticas como a gestação, o desenvolvimento fetal e a infância – períodos vitais para o sucesso reprodutivo mamífero e, portanto, alvos da seleção natural – é um consumidor ávido de glicose.
Essas descobertas foram compiladas a partir de análises sobre dietas de grandes primatas, metabolismo humano e estudos de populações tradicionais. A informação foi divulgada em um artigo publicado na última quinta-feira (6) no periódico especializado Science.
A carne no centro do debate evolutivo
A visão tradicional sobre a evolução humana ganhou força a partir de meados do século passado, com a descoberta de ferramentas de pedra na África Oriental associadas a ossos de animais. Esses achados levaram cientistas a postular que os primeiros hominídeos, como membros primitivos do gênero Homo, intensificaram a caça e o consumo de carne. A correlação entre esse período e o aumento do tamanho do cérebro, que se tornou maior que o de um chimpanzé atual há cerca de 2 milhões de anos, solidificou a hipótese de que as novas habilidades de caçador proporcionaram os recursos alimentares necessários para o desenvolvimento cerebral. A proteína, a gordura da carne e o tutano ósseo eram vistos como os principais impulsionadores desse avanço.
Estudos sobre o comportamento de chimpanzés, que se alimentam primariamente de frutas mas também praticam a caça cooperativa de outros animais, complementaram essa visão. No entanto, os autores do novo estudo argumentam que essa perspectiva é incompleta.
A importância dos açúcares para o cérebro e a reprodução
A nova pesquisa destaca que dietas excessivamente restritas em açúcares e focadas exclusivamente em alimentos de origem animal podem ser problemáticas para a maioria dos seres humanos, principalmente devido às elevadas demandas de glicose do cérebro. Embora o corpo possa converter proteínas e gorduras em glicose, esse processo é lento, ineficiente e consome muita energia. Além disso, a falta de açúcares na dieta pode afetar negativamente a cognição em adultos e o desenvolvimento cerebral de fetos.
Para os pesquisadores, essas necessidades energéticas moldaram as estratégias alimentares de nossos ancestrais. A coleta contínua de frutas, a busca por fontes de mel (uma das fontes mais ricas de açúcar antes do seu cultivo) e, crucialmente, o processamento de diferentes formas de amido tornaram-se essenciais. As ferramentas de pedra, embora importantes para o acesso à proteína e gordura animal, também facilitaram a preparação de raízes, tubérculos e sementes ricas em carboidratos.
A capacidade de macerar essas fontes de amido, combinada com o domínio do fogo e do cozimento há cerca de 1 milhão de anos, permitiu a obtenção de açúcares a partir de uma nova via. A disponibilidade dessas fontes se expandiu ainda mais com o desenvolvimento da agricultura após o fim da Era do Gelo, há cerca de 10 mil anos.
Novas estimativas sobre o consumo energético
As estimativas dos pesquisadores sugerem que os primeiros hominídeos obtinham cerca de 65% de suas necessidades energéticas do consumo de frutas e outros alimentos doces. Nos humanos modernos, essa proporção caiu para aproximadamente 25%, ainda assim superando a energia proveniente de proteínas (cerca de 19%). Essa análise, contudo, não considera a presença de fibras e outros nutrientes essenciais que acompanham as frutas in natura.
A inclusão do açúcar como um componente vital na dieta evolutiva humana oferece uma nova dimensão ao entendimento de como nossos ancestrais se desenvolveram, sugerindo que a busca por doces foi tão impulsionadora quanto a caça para moldar quem somos hoje.
