Pesquisadores descobrem que ingestão de açúcar pode piorar a inflamação em portadores de asma.
O consumo excessivo de açúcar, conhecido por seus malefícios como cáries, ganho de peso e risco de diabetes, pode ter um impacto ainda mais imediato e severo para pessoas com asma. Um estudo recente com camundongos, publicado na revista científica Nutrients, demonstrou que altas doses de açúcar podem agravar significativamente a inflamação pulmonar em curto prazo, aumentando o risco de crises alérgicas.
A pesquisa, financiada pela Fapesp, envolveu a administração de leite condensado a camundongos que consumiam sua ração habitual. Em um período de apenas duas semanas – equivalente a aproximadamente dois anos em humanos –, os animais apresentaram efeitos negativos notáveis. Este é o primeiro estudo a demonstrar, em um modelo experimental de asma, a rapidez com que o açúcar pode intensificar processos inflamatórios.
Caroline Marcantonio Ferreira, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC) e coordenadora do estudo, ressalta a importância dos achados: “Quando uma criança consome muito açúcar, pensamos em consequências como cárie ou obesidade. Mas raramente consideramos que, em um período tão curto, uma alergia preexistente possa ser agravada”. Segundo a cientista, os resultados têm implicações cruciais tanto para a prática clínica quanto para a formulação de políticas públicas de saúde.
O açúcar como agente inflamatório sistêmico
A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas, afetando cerca de 300 milhões de pessoas globalmente e com prevalência crescente. Caracteriza-se pelo estreitamento dos brônquios e aumento da produção de muco, dificultando a respiração. O organismo de asmáticos responde a alérgenos com a liberação de substâncias pró-inflamatórias e anticorpos específicos, resultando em sintomas como falta de ar, chiado e tosse.
O estudo sugere que o açúcar não é apenas uma fonte de calorias vazias, mas um agente inflamatório ativo. Os experimentos em camundongos indicaram que o açúcar induz uma inflamação sistêmica que se origina no tecido adiposo abdominal. Esse tecido passa a produzir substâncias inflamatórias, como leptina e citocinas, que circulam pelo corpo e intensificam a resposta alérgica nos pulmões. Observou-se também a migração de células de defesa inflamatórias (macrófagos M1) da gordura abdominal para os pulmões.
“Essa é a principal hipótese para explicar por que o açúcar piora a inflamação da asma. Observamos que o açúcar provoca inflamação no tecido adiposo mesmo em animais que não têm asma. Nos que consomem açúcar, mas não são alérgicos, o pulmão permanece normal, mas a gordura fica inflamada. Isso sugere que o processo começa na gordura e que substâncias liberadas ali acabam migrando para o pulmão, onde intensificam uma resposta alérgica já existente”, explica Ferreira.
Recomendações e implicações futuras
Os autores do estudo alertam que pessoas com asma devem considerar o controle da ingestão de açúcar no mesmo nível de importância que o controle de alérgenos ambientais como mofo, poeira e poluição. Mateus Casaro, coautor do estudo, enfatiza: “O açúcar não é apenas uma caloria vazia, é um agente inflamatório ativo, capaz de alterar o equilíbrio imunológico muito antes de qualquer ganho de peso visível”. Ele acrescenta que a adequação da dieta é uma estratégia acessível e eficiente, que deve complementar o tratamento medicamentoso de pacientes com asma.
Embora a pesquisa tenha sido realizada com um modelo específico de asma, os pesquisadores acreditam que o alto consumo de açúcar também pode agravar inflamações preexistentes em outros órgãos, como demonstrado em um estudo anterior sobre dermatite. É crucial notar que a dieta rica em açúcar não causa asma por si só, mas atua como um amplificador potente da inflamação em indivíduos predispostos. O artigo completo, intitulado “A short-term high-sugar diet induces glucose intolerance, visceral adipose tissue inflammation, and exacerbates experimental allergic asthma”, está disponível em www.mdpi.com/2072-6643/18/9/1475.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Agência Fapesp.
