A ciência sob ataque: como o bolsonarismo distorce e instrumentaliza o conhecimento científico
A ciência sob ataque: como o bolsonarismo distorce e instrumentaliza o conhecimento científico

A ciência sob ataque: como o bolsonarismo distorce e instrumentaliza o conhecimento científico

A ciência, um campo de batalha ideológico A relação entre a ciência e a sociedade brasileira, especialmente sob a influência de discursos bolsonaristas, tem se mostrado complexa e, por vezes, conflituosa. Pesquisas indicam que a confiança nos cientistas não é uniforme e tende a ser menor entre eleitores de direita, que muitas vezes veem os […]

Resumo

A ciência, um campo de batalha ideológico

A relação entre a ciência e a sociedade brasileira, especialmente sob a influência de discursos bolsonaristas, tem se mostrado complexa e, por vezes, conflituosa. Pesquisas indicam que a confiança nos cientistas não é uniforme e tende a ser menor entre eleitores de direita, que muitas vezes veem os cientistas como alinhados a posições políticas opostas às suas. Essa percepção sugere um padrão onde a confiabilidade do cientista é julgada mais por sua suposta concordância com as visões de mundo do indivíduo do que por sua competência ou método científico.

No Brasil, essa tendência se acentua. Um estudo abrangente com 72 mil pessoas em 68 países colocou o país na 21ª posição em confiança nos cientistas. A análise revelou que quanto mais à direita se posiciona o entrevistado, menor a crença de que os cientistas agem em prol do interesse público, uma queda notavelmente mais acentuada em comparação com outras nações estudadas. Sociólogos que investigaram grupos bolsonaristas em plataformas como o Telegram descreveram a emergência de uma “ciência patriótica”, que propõe a existência de médicos e estudos próprios, em contraposição à ciência “mainstream”, vista como corrompida. Essa dinâmica não reflete uma rejeição total à ciência, mas sim uma disputa sobre quem detém a autoridade para defini-la.

As consequências dessa abordagem instrumental e seletiva da ciência podem ser severas, como evidenciado durante a pandemia de Covid-19. Apoiadores do ex-presidente Bolsonaro, em pesquisa de 2020, demonstraram menor conhecimento sobre o coronavírus e menor preocupação com a pandemia em comparação com seus opositores. Em nível municipal, correlacionou-se um maior percentual de votos em Bolsonaro com menor cobertura vacinal, menor adesão ao distanciamento social e maior mortalidade. Estimativas apresentadas na CPI da Covid-19 atribuíram o atraso na aquisição de vacinas a um número alarmante de mortes evitáveis, que variaram entre 95 mil e 145 mil.

A necropolítica e a negação da ciência

A atuação de Flávio Bolsonaro exemplifica essa desconexão com o rigor científico. Em 2020, ele divulgou uma imagem falsa para promover a cloroquina como cura para a Covid-19 e, posteriormente, alegou cura pessoal atribuída a tratamentos precoces sem validação clínica. Sua defesa da campanha “O Brasil não pode parar”, que promovia o fim do isolamento social em meio a um pico de mortes, e sua minimização do aquecimento global em entrevistas recentes, com alegações sobre “épocas cíclicas”, contrastam com o consenso científico esmagador que aponta a ação humana como causa principal das mudanças climáticas.

A visão de Flávio Bolsonaro sobre o financiamento científico também reflete essa lógica utilitarista. Ele defende o investimento em áreas como tecnologia e inteligência artificial, mas considera que verbas públicas não devem ser alocadas em campos que, em sua opinião, “não agregam nada ao país”. Essa perspectiva se traduz em propostas de retirar universidades federais do Ministério da Educação e condicionar agências de fomento, como a Capes e o CNPq, a um critério de impacto produtivo, reduzindo a ciência a uma ferramenta de conveniência.

Ataques à ciência e a perda de credibilidade

O padrão de descredibilizar dados científicos quando contrariam agendas políticas foi observado anteriormente. Em 2019, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) registrou um aumento no desmatamento na Amazônia, Jair Bolsonaro questionou a veracidade dos dados e insinuou que o diretor do órgão, Ricardo Galvão, estaria a serviço de ONGs. A exoneração de Galvão e a continuidade do desmatamento evidenciaram a prioridade dada à narrativa política sobre a evidência científica.

A ciência, por natureza, não serve para validar crenças preexistentes nem para agradar a quem desconfia. Sua lealdade reside no método, que exige a denúncia de manipulações ideológicas de evidências. Embora não seja a única forma de conhecimento, a ciência é uma ferramenta poderosa para a compreensão do mundo e para a tomada de decisões em prol do bem coletivo. A recusa do governo Bolsonaro em adotar uma postura baseada em evidências científicas resultou em perdas irreparáveis, especialmente em vidas humanas. Como alerta Primo Levi, “se aconteceu, pode acontecer de novo”. A antecipação de cenários a partir de dados é um ofício científico, e a ascensão de movimentos que desvalorizam a ciência exige vigilância e a análise contínua das evidências de risco.

Este artigo é assinado pela Coalizão Ciência e Sociedade, formada por 74 cientistas de todo o Brasil.

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