Pesquisadoras brasileiras investigam a ligação entre experiências de violência e o desenvolvimento de demência em mulheres, com foco especial em traumas sofridos na infância. A pesquisa sugere que agressões físicas, abusos sexuais e traumas psicológicos podem desencadear alterações cerebrais que predispõem à doença na terceira idade.
A violência vivenciada por mulheres ao longo da vida, especialmente durante a infância, pode ser um fator que eleva o risco de desenvolver demência na velhice. Agressões, abusos sexuais e traumas psicológicos podem causar modificações no cérebro, comprometendo a memória e outras funções cognitivas essenciais. Essa hipótese está sendo investigada por um grupo de pesquisadoras brasileiras que analisaram estudos sobre diferentes formas de violência, incluindo abusos na infância e agressões por parceiros íntimos na vida adulta.
A neurologista Raquel Molina, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), iniciou o estudo do tema ao observar relatos de violência em pacientes atendidas no ambulatório de demência do Hospital Universitário Antônio Pedro, ligado à UFF. Em colaboração com a neurologista Sephora Almeida, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, e outras colegas, Molina conduziu uma revisão sistemática que foi apresentada na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer (AAIC), em Londres. Embora o trabalho ainda não tenha sido publicado em revista científica, os resultados parciais são notáveis.
Impactos da violência no cérebro
A análise combinada de três estudos revelou que mulheres que sofreram violência física e sexual apresentaram um risco 50% maior de desenvolver demência em comparação com aquelas sem histórico de agressões. A associação foi mais forte quando a violência ocorreu na infância e se intensificou com a frequência e a gravidade das agressões. Mulheres que foram vítimas de abuso físico ou sexual grave na infância tiveram um risco aproximadamente duas vezes maior de desenvolver a doença.
Os resultados sobre a violência na vida adulta são menos conclusivos. Um estudo australiano com mais de 12 mil mulheres entre 70 e 75 anos não encontrou uma ligação direta entre violência por parceiros íntimos e demência, mas observou uma mortalidade precoce entre as vítimas. Os pesquisadores levantam a hipótese de que, por morrerem mais cedo, essas mulheres podem não ter vivido o tempo suficiente para desenvolver a demência, além da possibilidade de subnotificação da violência.
Raquel Molina ressalta que, por enquanto, a violência não é considerada um fator de risco independente para demência nas diretrizes médicas, devido à escassez de estudos. “Tem alguns dados que levantam essa hipótese, mas é uma área pouco estudada ainda”, afirma a neurologista. Ela explica que traumatismos cranianos repetidos e episódios de sufocamento podem causar lesões cerebrais diretas, danificando neurônios e, em alguns casos, levando à perda de tecido cerebral. Estudos também associam experiências de violência à atrofia cerebral, incluindo a redução do hipocampo, área crucial para a formação de memórias e afetada pela doença de Alzheimer.
A violência psicológica, mesmo sem agressões físicas, também pode ter consequências. O estresse crônico gerado por medo, ameaças e humilhações persistentes pode prejudicar a memória, a atenção e o aprendizado. Sephora Almeida complementa que esse estado de alerta pode desencadear alterações biológicas e químicas no organismo, favorecendo transtornos de humor que impactam o desempenho cognitivo. Crianças expostas a ambientes violentos ou de negligência podem ser afetadas mesmo sem sofrerem agressões diretas, num processo descrito por Almeida como “inflamar o cérebro o tempo inteiro”.
Desafios na pesquisa e implicações futuras
Um estudo americano publicado em 2025 observou que mulheres que relataram violência emocional apresentaram resultados ligeiramente piores em testes de memória e atenção, embora não tenham demonstrado um declínio cognitivo mais acelerado em cinco anos. A pesquisa, no entanto, não avaliou o desenvolvimento de demência.
Um dos principais desafios para aprofundar essa linha de pesquisa é a natureza retrospectiva da maioria dos estudos, onde idosos relatam violências sofridas décadas antes, dependendo da memória e da disposição para compartilhar traumas. Pesquisas longitudinais que acompanham participantes desde a infância ainda não atingiram a faixa etária de maior incidência de demência. Além disso, a medição da intensidade e duração das agressões, especialmente as psicológicas, é complexa, e muitas mulheres podem não se sentir seguras para relatar tais experiências em consultas médicas.
Investigar a relação entre violência e demência pode também ajudar a explicar por que a doença é mais comum em mulheres, uma questão atualmente atribuída principalmente a fatores hormonais. “Será que o fato das mulheres serem muito mais expostas à violência pode ser uma das justificativas de por que as mulheres desenvolvem mais demência do que homens?”, questiona Molina. Almeida reforça a importância de encarar a violência não apenas como um problema de segurança, mas também de saúde pública. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Conferência Internacional da Associação de Alzheimer (AAIC) e estudos científicos correlatos.
