A presença de diabetes em doadores falecidos não é um impeditivo para o sucesso de transplantes renais, conforme aponta uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O estudo, publicado na revista científica Clinical Transplantation, analisou os resultados de 3.058 transplantes de rim em adultos e demonstrou que rins de doadores com a condição podem apresentar desempenho comparável aos de doadores sem diabetes, quando avaliados adequadamente.
A pesquisa, conduzida no Hospital do Rim, em São Paulo, com transplantes realizados entre janeiro de 2013 e dezembro de 2017, acompanhou os receptores por até cinco anos. Inicialmente, 244 pacientes receberam órgãos de doadores diagnosticados com diabetes e com um Índice de Perfil de Doadores de Rins (KDPI) superior. O KDPI é um sistema que avalia a qualidade e a expectativa de vida útil de um rim proveniente de um doador falecido.
Para garantir a precisão dos resultados, cada doador com diabetes foi comparado a dois doadores sem a doença, mas com perfis de saúde semelhantes. A análise inicial sugeriu um desempenho renal inferior nos receptores de rins de doadores diabéticos. Contudo, ao aprofundar a investigação, os pesquisadores identificaram que esses doadores apresentavam um quadro clínico mais complexo, sendo em média uma década mais velhos, com o dobro de incidência de hipertensão arterial e histórico de morte por acidente vascular cerebral (AVC).
Para isolar o efeito do diabetes e neutralizar a influência de outras variáveis, a equipe utilizou uma metodologia estatística avançada conhecida como pareamento por escore de propensão. Esse método permitiu comparar os grupos como se os indivíduos tivessem idades, níveis de pressão arterial e causas de morte equivalentes, tendo o diabetes como a única diferença significativa.
Após a aplicação dessa metodologia, a função renal dos receptores, medida cinco anos após o transplante, mostrou-se equivalente entre os grupos que receberam rins de doadores com e sem diabetes. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Unifesp.
Aproveitamento de órgãos e critérios de avaliação
Lúcio Roberto Requião Moura, professor adjunto da disciplina de Nefrologia da EPM/Unifesp e coautor do estudo, destaca duas mensagens importantes da pesquisa. A primeira é que a inclusão da biópsia renal no processo de decisão sobre doadores falecidos pode reduzir o desperdício de órgãos, aproveitando aqueles que poderiam ser descartados sem uma análise aprofundada. A segunda mensagem enfatiza a importância de não analisar uma característica isoladamente, mas sim o conjunto do perfil do doador.
O diabetes, por si só, não é um critério absoluto de exclusão para doação de rim de falecido, desde que o doador não tenha apresentado insuficiência renal crônica antes da morte encefálica. A equipe médica realiza uma avaliação detalhada, considerando o tempo de evolução da doença, histórico clínico e exames físicos ou biópsias do órgão para descartar nefropatia diabética grave ou danos macroscópicos severos. Em doadores vivos, no entanto, o diabetes representa uma contraindicação.
Moura ressalta que doadores com diabetes tendem a ser menos aceitos devido à sua associação com a doença renal. No entanto, o estudo sugere que receber um rim de um doador com diabetes pode ser uma opção melhor para o paciente do que permanecer em diálise, dependendo da avaliação individualizada.
O Sistema Nacional de Transplantes
O professor também comentou sobre o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), afirmando que não há necessidade de mudanças significativas. Desde 2010, o SNT prioriza a compatibilidade genética como principal critério de desempate. Recentemente, a legislação foi revisada e um novo sistema de alocação está em fase de implementação, que também dará peso ao tempo de espera na fila, beneficiando pacientes que aguardam há mais tempo por um transplante.
O Brasil possui o maior programa público de transplantes do mundo, reconhecido por sua justiça, transparência e base em evidências científicas. Os serviços de transplante no país estão preparados para utilizar órgãos de doadores considerados não ideais, mas que, quando aproveitados, podem proporcionar um resultado clínico superior à diálise para os pacientes.
