Nova esperança contra Alzheimer: Paciente relata 'só não querer retroceder' com tratamento inovador
Nova esperança contra Alzheimer: Paciente relata ‘só não querer retroceder’ com tratamento inovador

Nova esperança contra Alzheimer: Paciente relata ‘só não querer retroceder’ com tratamento inovador

No combate ao Alzheimer, a busca por frear a progressão da doença ganha contornos de esperança com o surgimento de novas terapias. Edna Barbosa, 72 anos, diagnosticada com a doença no final de 2022, personifica essa nova fase ao se tornar uma das pacientes a testar o donanemabe, um anticorpo monoclonal que promete agir diretamente […]

Resumo

No combate ao Alzheimer, a busca por frear a progressão da doença ganha contornos de esperança com o surgimento de novas terapias. Edna Barbosa, 72 anos, diagnosticada com a doença no final de 2022, personifica essa nova fase ao se tornar uma das pacientes a testar o donanemabe, um anticorpo monoclonal que promete agir diretamente nos mecanismos que levam à degeneração neural. Aos que lhe perguntam sobre suas expectativas, a resposta de Edna é direta e carregada de significado: “Eu só não quero retroceder”.

Os primeiros sinais de que algo ia além da distração comum da idade surgiram de forma sutil, mas insistente. Esquecimentos frequentes e repetição de ações levaram Edna e seu marido, Vidson Barbosa, 72, a buscar avaliação médica. Após o diagnóstico de Alzheimer, o casal iniciou o tratamento com donepezila, um dos medicamentos tradicionais que, embora alivie sintomas, não interfere na progressão da doença. No entanto, a descoberta de novas abordagens terapêuticas reacendeu a esperança.

Por décadas, as opções de tratamento para o Alzheimer focavam no alívio sintomático, com medicamentos como tacrina, donepezila, galantamina, rivastigmina e memantina. A mudança de paradigma chegou com os anticorpos monoclonais, uma nova classe de fármacos desenvolvidos para se ligarem à proteína beta-amiloide, principal responsável pela formação de placas que prejudicam o funcionamento cerebral em pacientes com Alzheimer. O donanemabe, princípio ativo do Kisunla, da farmacêutica Eli Lilly, foi aprovado pela Anvisa em abril de 2025 e representa um marco nesse avanço.

A descoberta desses novos medicamentos, como o donanemabe e o lecanemabe (aprovado no Brasil em dezembro de 2024), foi impulsionada por pesquisas que buscavam intervir nas causas da doença, e não apenas em seus efeitos. O donanemabe, administrado por infusão intravenosa mensal, demonstrou em estudos internacionais redução da progressão clínica em comparação com placebo. O lecanemabe, por sua vez, tem uso contínuo. Ambos exigem que o paciente esteja em estágio inicial da doença e com evidências biológicas de Alzheimer.

Desafios de acesso e a batalha judicial

Apesar do potencial terapêutico, o acesso a esses medicamentos ainda esbarra em barreiras financeiras e logísticas significativas. O custo mensal do lecanemabe pode ultrapassar os R$ 11.000, enquanto o donanemabe, após a fase inicial, pode custar cerca de R$ 24.000 mensais. No caso de Edna, o plano de saúde inicialmente negou a cobertura do donanemabe, levando o casal a recorrer à Justiça e obter uma liminar. As primeiras aplicações foram custeadas por eles, mas o plano passou a cobrir o tratamento após a decisão judicial.

A jornada para receber o tratamento exige que Edna e Vidson viajem cerca de 200 quilômetros de carro de sua cidade natal, Marília (SP), até Londrina (PR), onde as infusões são realizadas. Nesta segunda-feira (21), Dia Mundial de Conscientização da Doença de Alzheimer, Edna receberá sua quarta dose do medicamento, um ritual que simboliza a luta diária contra o avanço da doença.

A expectativa médica é que, com o donanemabe, seja possível prolongar o período em que o paciente mantém sua independência e qualidade de vida. Estudos indicam que uma parcela dos pacientes tratados não avança para fases mais críticas da doença durante um certo período. No entanto, a comunidade científica mantém uma postura de cautela. Uma revisão publicada na Cochrane Library apontou que, embora esses novos medicamentos reduzam as placas amiloides, seu impacto clinicamente significativo na capacidade de realização de atividades cotidianas ainda é incerto, sendo considerado pequeno, na melhor das hipóteses.

Um vislumbre de normalidade no cotidiano

Por enquanto, Edna e Vidson celebram as pequenas vitórias. Edna, que se mantém ativa nas tarefas domésticas, como cuidar da casa, lavar roupas e fazer compras, relata que a dificuldade em encontrar objetos na cozinha, um dos sintomas iniciais, diminuiu. Apesar de ainda lidar com o esquecimento e com a escrita, que se tornou mais desafiadora, ela permanece independente em boa parte de suas atividades diárias.

Apesar de não representarem uma cura, os novos medicamentos oferecem a possibilidade de desacelerar a progressão do Alzheimer, prolongando a fase em que os pacientes podem viver com mais autonomia. É fundamental notar que esses tratamentos não revertem danos já existentes e podem apresentar efeitos adversos, como inchaço e pequenos sangramentos cerebrais. A indicação é restrita a uma parcela específica de pacientes, e o alto custo e a infraestrutura necessária continuam sendo obstáculos para um acesso mais amplo.

Para Edna, a meta é clara: “Eu vou levando a vida do jeito que dá e vou tomando meu remédio. Faço as minhas coisas sozinha. E se eu esquecer, ele [o marido] não esquece.” A cada infusão, a esperança de manter o presente, sem retroceder, se renova, alimentada pelo amor e pela dedicação de Vidson.

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