Fapesp ajusta regras de bolsas internacionais após polêmica
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) anunciou mudanças significativas na concessão de suas bolsas de estágio de pesquisa no exterior (Bepe), reduzindo a duração máxima de 12 para 6 meses para doutorado e pós-doutorado. As novas regras, que entrariam em vigor a partir de 1º de setembro de 2026, também previam a exclusão de bolsistas de iniciação científica (IC) e mestrado. No entanto, após intensa repercussão negativa da comunidade acadêmica e de pesquisadores, a Fapesp recuou em parte e anunciou que emitirá chamadas especiais para essas modalidades.
A fundação justificou as alterações iniciais como uma medida para reequilibrar suas finanças, citando um aumento expressivo de 73% na oferta de bolsas entre 2023 e 2025, enquanto projetos de pesquisa cresceram apenas 3,7%. Em junho deste ano, os gastos com bolsas chegaram a quase 60% do orçamento da Fapesp, acima da média histórica de 35%, o que, segundo a agência, poderia comprometer o financiamento de projetos de maior porte.
Inicialmente, a Fapesp comunicou que a concessão de bolsas Bepe seria restrita a estudantes de doutorado, doutorado direto e pós-doutorado, excluindo graduação e mestrado. A justificativa era evitar o comprometimento financeiro de projetos científicos. Contudo, a forte reação da comunidade acadêmica levou a Fapesp a emitir um novo comunicado. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Fapesp e reportagens.
Reversão parcial e novas chamadas especiais
Diante da pressão, a Fapesp informou que uma chamada especial para bolsistas de mestrado e IC com projetos vigentes até 31 de agosto deste ano será anunciada no final de setembro. Para aqueles que solicitarem a partir de 1º de setembro de 2026, um edital específico será publicado no primeiro semestre de 2027. Os pesquisadores de doutorado, doutorado direto e pós-doutorado continuarão sendo atendidos em fluxo contínuo, com a possibilidade de prorrogação por mais 6 meses mediante análise de mérito.
A Fapesp reiterou que não houve corte no número de bolsas, mas sim alterações nos critérios de elegibilidade e duração, com o objetivo de priorizar estágios no exterior para estudantes em estágios mais avançados de formação acadêmica e científica. Os valores dos auxílios permanecem os mesmos, podendo chegar a aproximadamente R$ 25,5 mil mensais para pós-doutores em países como China, Coreia do Sul e Nova Zelândia.
Justificativas financeiras e críticas da comunidade acadêmica
Segundo a Fapesp, o desequilíbrio financeiro entre o dispêndio de auxílios e bolsas entre 2023 e 2025 motivou as mudanças. A agência apontou que as despesas com bolsas cresceram significativamente, impactando o orçamento destinado a projetos de pesquisa mais amplos. No entanto, entidades como a Associação Nacional dos Pós-Graduandos (ANPG) criticaram as justificativas, argumentando que o retorno científico de estágios no exterior, mesmo em níveis de mestrado e IC, é um objetivo valioso em si mesmo e que os repasses do governo estadual para a Fapesp não sofreram cortes.
Representantes da ANPG chegaram a protocolar um ofício solicitando a revogação imediata das novas regras e a restituição dos prazos originais. Eles relataram dificuldades em dialogar com a diretoria da Fapesp, chegando a serem impedidos de entrar no prédio da fundação. A Secretaria de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo declarou que a definição dos critérios é uma atribuição técnica da Fapesp e que a atual gestão ampliou os recursos destinados à fundação, demonstrando compromisso com a pesquisa e inovação.
As idas e vindas na definição das regras refletem a tensão entre a necessidade de gestão orçamentária e a demanda da comunidade científica por apoio irrestrito à formação e pesquisa. A Fapesp informou que as informações sobre a concessão de bolsas estão em comunicado divulgado na noite de terça-feira (1º), mas não respondeu a questionamentos específicos sobre a duração das bolsas nas chamadas futuras para mestrado e IC até o fechamento desta reportagem.
