Ministro do STF é citado em diálogos sobre organização de evento internacional com autoridades brasileiras
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), teria prestado auxílio na organização de um evento em Londres, em abril de 2024, voltado para autoridades brasileiras. As informações surgiram a partir de diálogos encontrados no celular apreendido de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e proprietário do Banco Master, que teve sua liquidação decretada após uma fraude bilionária. Os registros, que indicam uma relação de proximidade entre Moraes e Vorcaro, foram revelados após o levantamento de sigilo de um relatório da Polícia Federal, autorizado pelo ministro André Mendonça.
Segundo a investigação policial, Moraes teria convidado o também ministro do STF, Gilmar Mendes, para participar do encontro, que seria organizado em conjunto pelo ConJur, Correio Braziliense e o Banco Master. Em uma mensagem recuperada pela PF, Moraes expressa o desejo de convidar Gilmar Mendes para um “Evento jurídico-político em Londres, 24 a 27 de abril, com a presença do Financial Times inclusive”. O convite também mencionava a homenagem ao ex-presidente Michel Temer e ao então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, além da participação de Gilmar Mendes em um painel.
As informações obtidas pela Polícia Federal sugerem que a programação do evento era discutida previamente com Daniel Vorcaro e, segundo o próprio empresário, aprovada por Alexandre de Moraes. Em uma das conversas, uma funcionária do Banco Master questionou a possibilidade de incluir Antônio de Rueda, presidente do União Brasil, como moderador de um painel. A resposta de Vorcaro foi enfática: “de jeito nenhum. Alexandre morre se você fizer isso. Aliás, nos mata”.
Detalhes sobre a organização e possíveis vetos de participantes
Outros diálogos recuperados pela investigação apontam que Alexandre de Moraes teria expressado descontentamento com a organização do evento. Vorcaro relatou que o ministro havia “reclamado MUITO do evento”, considerando a organização “deficiente”, “desorganizada” e que “ninguém sabe de nada”. Há também o registro de uma mensagem do ex-ministro Fábio Faria, na qual ele afirma que Moraes teria vetado a participação de certos convidados, com o objetivo de que os demais soubessem disso por uma questão de “ego”.
O relatório da Polícia Federal menciona duas edições do evento, denominado “Fórum Jurídico Brasil de Ideias”. A primeira ocorreu em Londres em 2024, com a participação de Moraes, que também esteve presente em uma degustação de whisky Macallan durante a mesma viagem. Documentos encaminhados à CPMI do INSS indicam que essa degustação teve um custo aproximado de R$ 3,2 milhões. Uma segunda edição, prevista para 2025, foi posteriormente cancelada.
A Polícia Federal ressalvou que a análise dos dados apreendidos “não possui caráter exaustivo” e que outras referências indiretas aos fatos podem ainda não ter sido identificadas. Parte das conversas, enviadas pelo recurso de visualização única do WhatsApp, pode dificultar a reconstrução completa de alguns diálogos.
A reportagem entrou em contato com o gabinete de Alexandre de Moraes no STF e com a defesa de Daniel Vorcaro para obter pronunciamento sobre as informações apresentadas pela Polícia Federal e aguarda retorno.
