Fungos e bactérias podem sobreviver na Lua, mas sem proliferação, aponta estudo
Fungos e bactérias podem sobreviver na Lua, mas sem proliferação, aponta estudo

Fungos e bactérias podem sobreviver na Lua, mas sem proliferação, aponta estudo

Sobrevivência microbiana na Lua é possível, mas crescimento é improvável Cinco tipos comuns de microrganismos terrestres, incluindo bactérias como Bacillus, Deinococcus e Staphylococcus, e fungos como Aspergillus e Fusarium, demonstraram capacidade de sobreviver nas condições extremas da Lua. Um novo estudo publicado na revista Science Advances sugere que esses organismos podem existir no satélite natural […]

Resumo

Sobrevivência microbiana na Lua é possível, mas crescimento é improvável

Cinco tipos comuns de microrganismos terrestres, incluindo bactérias como Bacillus, Deinococcus e Staphylococcus, e fungos como Aspergillus e Fusarium, demonstraram capacidade de sobreviver nas condições extremas da Lua. Um novo estudo publicado na revista Science Advances sugere que esses organismos podem existir no satélite natural da Terra, mas não se reproduzir ou proliferar. A pesquisa, liderada por cientistas da Nasa em colaboração com universidades americanas e o Observatório de Turim, na Itália, analisou a viabilidade de células orgânicas em diferentes ambientes lunares.

Os modelos desenvolvidos pelos pesquisadores indicam que os polos lunares, especialmente as regiões com menor exposição à radiação cósmica, seriam as áreas mais propícias à sobrevivência. Para o fungo Aspergillus, por exemplo, as simulações apontam que células poderiam permanecer viáveis por até sete dias. O líder do estudo, Prabal Saxena, do Centro Goddard da Nasa, destacou que o diferencial desta pesquisa é a demonstração de sobrevivência em uma quantidade significativa de áreas fora das regiões permanentemente sombreadas, ampliando a compreensão sobre o potencial astrobiológico da Lua.

“Devido à expansão de áreas e ao período durante o qual diferentes microrganismos puderam sobreviver, devemos repensar a Lua do ponto de vista da astrobiologia. Ela não é Marte, mas é mais interessante do que se acreditava”, afirmou Saxena. Este trabalho é pioneiro ao comparar diferentes topografias lunares e a resistência de microrganismos frequentemente em contato com humanos, inclusive em missões espaciais controladas.

Resistência microbiana em ambientes extremos

Utilizando dados de temperatura e radiação ultravioleta coletados pelo instrumento Diviner da sonda LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter), os pesquisadores simularam as condições do polo sul lunar. Os parâmetros foram baseados em estudos laboratoriais que expuseram os microrganismos a temperaturas extremas, altos níveis de radiação e vácuo. Os modelos identificaram áreas potencialmente favoráveis à existência de todos os cinco microrganismos em ambos os polos lunares.

O fungo Aspergillus destacou-se como o mais resistente. Segundo a pesquisa, sua capacidade de formar esporos com paredes espessas e pigmentos escuros confere proteção contra raios X, radiação cósmica e raios UVC. Adicionalmente, o Aspergillus consegue manter uma atividade metabólica muito baixa, o que contribui para sua notável resistência.

É crucial, conforme explicam os cientistas, distinguir entre “sobrevivência” e “crescimento”. Sobrevivência refere-se à preservação celular, onde os organismos permanecem em um estado detectável, mas não necessariamente vivos ou ativos. O crescimento, por outro lado, implicaria reprodução mesmo após a exposição às condições lunares extremas, algo que, se ocorresse, seria uma descoberta extraordinária.

Implicações para a astrobiologia e futuras missões

Fabio Rodrigues, professor do Instituto de Química da USP e coordenador do Núcleo de Pesquisa em Astrobiologia (NAP/Astrobio), que não participou do estudo, comentou que o artigo lança luz sobre as condições lunares, sugerindo que o ambiente não é tão inóspito quanto se pensava, embora a Lua continue não sendo um foco principal de estudos astrobiológicos em comparação com outros corpos celestes.

Rodrigues ressalta que o foco nas regiões polares e em microrganismos resistentes ajuda a definir condições de sobrevivência, mas o crescimento exigiria a presença de água e atmosfera. Ele sugere que futuras explorações espaciais, como as planejadas pela Nasa com as missões Artemis, poderiam, eventualmente, criar ambientes controlados, como cúpulas, onde testes de reprodução microbiana poderiam ser realizados.

A pesquisa também levanta um alerta importante sobre a potencial contaminação do solo lunar durante expedições tripuladas. Microrganismos como bacilos, cocos e fungos podem aderir a equipamentos e trajes de astronautas, sendo inadvertidamente transportados para a superfície da Lua. Marcas de botas, rovers e pequenas escavações realizadas por futuras missões humanas podem, inclusive, criar nichos que favoreçam a sobrevivência microbiana.

“É muito provável que futuras atividades humanas possam proporcionar uma combinação de calor, água, nutrientes e proteção que favoreçam a atividade ou até mesmo a reprodução microbiana. Estudos futuros devem buscar compreender nosso impacto no ambiente lunar”, concluiu Saxena. A comunidade científica agora se volta para a compreensão do impacto das atividades humanas no delicado ambiente lunar e a possibilidade de, no futuro, criar condições para o desenvolvimento de vida em ambientes controlados.

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