Crescimento Inédito em Meio a Revisões e Ano Eleitoral
O número de beneficiários unipessoais do Bolsa Família atingiu 3,9 milhões em julho de 2026, representando um aumento de 344 mil pessoas desde o início do ano. Este avanço, divulgado pela Folha de S. Paulo, interrompe uma sequência de reduções iniciada após o governo federal promover uma revisão de cadastros considerados irregulares. O fenômeno ganha destaque especialmente por ocorrer em um ano eleitoral e em um contexto onde o crescimento de domicílios compostos por uma única pessoa já foi associado à prática de divisão artificial de famílias para maximizar o acesso a pagamentos do programa.
O Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) atribui a variação aos fluxos naturais de entrada e saída do programa, afirmando não identificar sinais de novas divisões artificiais de cadastros. Contudo, o crescimento interrompe uma trajetória de queda que havia sido observada após a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificar a fiscalização.
A disparada de cadastros unipessoais ganhou força no final de 2022, coincidindo com a instituição de um benefício mínimo de R$ 600 por família. Naquele período, o afrouxamento nos controles permitiu que indivíduos que residiam juntos passassem a declarar domicílios separados, buscando assim receber múltiplos benefícios. Em 2026, o cenário se inverteu, com o número de unipessoais voltando a subir, acompanhado por um aumento geral no total de famílias atendidas pelo programa, que saltou de 18,8 milhões para 19,3 milhões entre janeiro e julho.
Alerta em Municípios e Fiscalização Reforçada
Especialistas apontam que, embora mudanças demográficas com mais pessoas vivendo sozinhas possam explicar parte do aumento, há indícios de que o processo de correção dos registros esteja perdendo força. Os dados revelam uma variação significativa entre os municípios brasileiros: 128 cidades registraram aumento superior a 100% nos cadastros unipessoais desde o fim de 2022; 211 municípios tiveram crescimento entre 50% e 100%; e 613 apresentaram alta entre 10% e 50%.
Este é o primeiro movimento expressivo desse tipo desde o segundo semestre de 2024, quando um aumento similar levou o MDS a reforçar a fiscalização, levantando suspeitas de uso eleitoral do Cadastro Único em vista das eleições municipais. Embora o governo federal financie os programas sociais, as prefeituras são responsáveis pela gestão do Cadastro Único e pela aplicação das regras de seleção. O MDS, no entanto, declara não ter detectado indícios de uso eleitoral do cadastro em 2026.
A pasta monitora 306 municípios e três estados considerados críticos, incluindo locais que não respondem a pedidos de informação ou que apresentam uma proporção elevada de famílias unipessoais. Outros 45 municípios e cinco estados estão sob observação.
Proporção de Unipessoais Ultrapassa Limite de Referência
O principal indicador de atenção é a proporção de famílias de uma pessoa dentro do próprio programa. Em julho, elas representavam 19,9% dos beneficiários, superando o limite de referência de 16% estabelecido em 2023 para orientar a revisão de cadastros. Atualmente, 3.813 municípios ultrapassam esse limite, o maior número desde o início da divulgação dessa estatística em setembro de 2023. A situação é ainda mais concentrada em 736 municípios, onde os unipessoais compõem mais de 25% dos beneficiários, chegando a 40% em 35 cidades.
O MDS ressalta que ultrapassar a referência não configura, isoladamente, uma irregularidade. Para os casos em que a proporção de unipessoais excede 40%, estudos específicos serão realizados para avaliar a adoção de parâmetros regionalizados, considerando as características demográficas de cada região, com auxílio dos dados municipais do Censo de 2022. Em julho, o ministério também iniciou discussões com os Tribunais de Contas dos Estados para ampliar o monitoramento dos cadastros, prevendo o reforço de pedidos de informação às administrações locais e a abertura de processos de acompanhamento em municípios com indicadores fora do padrão.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Folha de S. Paulo.
