Nova pesquisa revela o poder das intervenções no estilo de vida para a saúde cognitiva
Um estudo pioneiro realizado na América Latina, o LatAm-Fingers, apresentou resultados expressivos que indicam que mudanças no estilo de vida podem melhorar o desempenho cognitivo global em idosos com risco de declínio cognitivo e demência em até 55%. A pesquisa, que é o primeiro ensaio clínico multicêntrico randomizado da região focado na prevenção, foi apresentado na Alzheimer’s Association International Conference (AAIC 2026) e publicado na renomada revista The Lancet.
O envelhecimento populacional é um desafio global crescente, com a América Latina e o Brasil apresentando algumas das mais altas prevalências de demência em idosos. Uma metanálise de 2022 indicou que a demência afeta cerca de 9% da população com 65 anos ou mais na região. Embora fatores como idade e genética não sejam modificáveis, o estudo LatAm-Fingers reforça a importância de intervir sobre fatores de risco controláveis.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo estudo LatAm-Fingers, apresentado na AAIC 2026 e publicado na revista The Lancet.
A abordagem multifacetada para a prevenção
Inspirado em estudos anteriores como o Finger (Finlândia, 2015) e o U.S. Pointer (Estados Unidos, 2025), que já haviam demonstrado os benefícios de intervenções em múltiplos domínios, o LatAm-Fingers adaptou essa metodologia para a realidade latino-americana. O estudo envolveu 12 centros de pesquisa em 11 países, incluindo dois no Brasil (UFMG e USP), acompanhando idosos de 60 a 77 anos com alto risco para declínio cognitivo.
Os participantes foram divididos em dois grupos: um recebeu orientações gerais de saúde, enquanto o outro participou de um programa sistemático que abrangia:
- Atividade física: Exercícios supervisionados quatro vezes por semana, combinando aeróbicos e fortalecimento muscular.
- Aconselhamento nutricional: Implementação da dieta Mind, que une os benefícios das dietas Mediterrânea e DASH, com adaptações às realidades locais.
- Treino cognitivo: Uso de um programa computadorizado (Brain HQ) com acompanhamento de neuropsicólogos e estudantes de psicologia.
- Controle clínico e cardiovascular: Monitoramento regular para controle de hipertensão, diabetes e colesterol.
- Socialização: Incentivada através das atividades em grupo.
Resultados promissores para a saúde cerebral
Os resultados do estudo LatAm-Fingers superaram as expectativas, demonstrando uma melhoria de até 55% no desempenho cognitivo global no grupo que recebeu a intervenção sistemática, em comparação com o grupo controle. Além do desempenho geral, observaram-se efeitos positivos na memória, função executiva (capacidade de planejamento) e velocidade de processamento de informações.
A alta prevalência de fatores de risco modificáveis não controlados na América Latina, como hipertensão e diabetes, pode explicar a expressividade desses resultados. Ao controlar esses fatores, o impacto positivo na saúde cerebral torna-se ainda mais acentuado. A pesquisa sugere que o aumento da reserva cognitiva pode atrasar o aparecimento de sintomas de doenças neurodegenerativas como o Alzheimer, além de beneficiar a saúde cardiovascular e metabólica.
A revista The Lancet já havia identificado 14 fatores de risco modificáveis para demência ao longo da vida, desde a infância até a idade adulta. A eliminação ou controle desses fatores, como analfabetismo, perda auditiva, hipertensão, diabetes e sedentarismo, poderia reduzir significativamente os casos de demência. No Brasil, estima-se que o controle desses fatores poderia eliminar quase 60% dos casos.
