A popular prática de aplicar perfume no pescoço, comum para muitas pessoas antes de sair de casa, tem sido alvo de discussões nas redes sociais, levantando dúvidas sobre possíveis riscos à tireoide. No entanto, especialistas e pesquisas indicam que não há evidências sólidas que sustentem essa preocupação específica.
Um alerta viral em uma rede social por um especialista em câncer sugeriu que o pescoço, por estar próximo à tireoide, poderia ser uma área a se pensar antes de aplicar perfume. A publicação mencionava a possibilidade de desregulação hormonal e exposição a substâncias químicas através da pele fina da região, o que poderia, teoricamente, estar ligado a doenças da tireoide ou até mesmo ao câncer. Contudo, a análise das evidências científicas disponíveis não corrobora essa hipótese.
A tireoide, uma glândula localizada na parte frontal inferior do pescoço, é responsável pela liberação de hormônios que regulam o metabolismo do corpo. Ela se encontra sob camadas de pele e tecido, e a aplicação de perfume na superfície da pele não cria uma via direta e seletiva para que os componentes da fragrância alcancem a glândula em doses maiores do que em outras partes do corpo. A absorção de substâncias pela pele depende de diversos fatores, como a composição química, a dose, o tempo de contato e as condições da pele, e a proximidade de um órgão não garante que ele será o alvo principal.
Ftalatos e desregulação hormonal: o que dizem os estudos?
Parte da preocupação em torno dos perfumes se concentra nos ftalatos, uma família de substâncias químicas com variados usos e potenciais efeitos à saúde. O ftalato de dietila (DEP), por exemplo, é utilizado em fragrâncias como solvente e fixador. Embora alguns estudos, como uma revisão sistemática publicada em 2024 com mais de 5.600 crianças e adolescentes, tenham associado a exposição a ftalatos a alterações em alguns hormônios da tireoide, é crucial notar que esses estudos analisaram a exposição proveniente de múltiplas fontes e não especificamente a aplicação de perfume no pescoço. Além disso, eles não estabeleceram uma relação de causa e efeito direta com doenças tireoidianas.
Pesquisas confirmam que o perfume pode ser uma fonte de exposição ao DEP, com estudos mostrando níveis mais elevados de um metabólito do DEP em usuários de perfume. No entanto, esses estudos não investigaram danos à tireoide nem o local de aplicação. A definição de um “disruptor endócrino” envolve a alteração do sistema hormonal com consequências prejudiciais, mas o risco depende da substância, dose, via e tempo de exposição. Um efeito observado em laboratório não se traduz necessariamente em risco para o uso cotidiano de produtos cosméticos.
Riscos mais estabelecidos e regulamentação
Os riscos mais bem documentados associados ao uso de perfumes na pele são a dermatite de contato alérgica, uma reação cutânea inflamatória e com coceira, que pode afetar uma parcela da população, e reações fototóxicas, que ocorrem quando substâncias na pele reagem à luz solar, como é o caso do óleo de bergamota. Em algumas regiões, como Reino Unido e Irlanda do Norte, cosméticos passam por avaliações de segurança antes de serem comercializados, considerando ingredientes, concentrações e uso provável.
Apesar de pesquisas adicionais poderem esclarecer os efeitos da exposição repetida a misturas de fragrâncias, as evidências atuais não indicam que borrifar perfume no pescoço represente um risco específico para a tireoide ou que cause câncer, conforme também não relatado pela Cancer Research UK. Caso ocorram reações adversas como ardência ou erupções cutâneas, a recomendação é suspender o uso e procurar orientação médica. É importante notar que fragrâncias “naturais” e rótulos “sem ftalatos” não garantem automaticamente segurança, pois óleos essenciais também podem causar alergias e substitutos de ftalatos podem não ser mais seguros.
As informações foram reunidas a partir de análises de estudos científicos e relatórios de órgãos de pesquisa em saúde.
