Endocrinologista Bruno Halpern critica o tratamento da obesidade no Brasil e pede discussão sobre acesso a medicamentos
O endocrinologista Bruno Halpern, presidente da Federação Mundial de Obesidade, criticou as restrições e a dificuldade de acesso ao tratamento da obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS). Diante do crescente uso e dos resultados positivos das chamadas “canetas emagrecedoras”, Halpern defende a urgência de um debate sério sobre como ampliar o acesso a esses medicamentos, incluindo negociações com a indústria farmacêutica para redução de seus custos. As informações foram reunidas em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.
Halpern ressalta que a oferta de medicamentos não deve ser a única medida. É fundamental que haja médicos capacitados para prescrever e acompanhar os pacientes a longo prazo, monitorando efeitos colaterais e a eficácia do tratamento. O especialista assumiu a presidência da Federação Mundial de Obesidade em julho e pretende focar em levar educação em saúde a mais profissionais da área.
Democratização do tratamento e o risco do mercado paralelo
O endocrinologista abordou a questão da abertura do mercado para laboratórios internacionais com a anuência da Anvisa. Ele explicou que, inicialmente, inovações científicas, como os medicamentos para obesidade, tendem a ter custos elevados devido ao alto investimento em pesquisa e desenvolvimento. No entanto, ele adverte que a abertura para produtos não registrados ou contrabandeados, como as “canetas paraguaias”, não é o caminho. Essa prática, segundo Halpern, caracteriza o uso desordenado de medicamentos sem controle de segurança e é ilegal.
“Não será pegando traficante na fronteira que vamos resolver o problema, mas, sim, se tivermos uma discussão séria na sociedade, do que nós podemos conseguir para ter mais acesso. Isso inclui discutir com as indústrias farmacêuticas formas de o custo ser reduzido e alternativas de maior acesso”, afirmou Halpern, que reconhece a situação como “fora de controle” e pede uma conversa franca entre Anvisa, sociedades médicas, Ministério da Saúde, Conitec e a indústria farmacêutica.
Acesso ao tratamento pelo SUS e diretrizes internacionais
Para pacientes com indicação para o uso de canetas emagrecedoras sem condições financeiras, Halpern vislumbra a inclusão desses medicamentos no SUS, inicialmente para populações prioritárias e com indicações específicas. Ele mencionou que a Federação Mundial de Obesidade e a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso) trabalham para encontrar soluções que levem a preços menores e maior acesso no sistema público.
A Federação Mundial de Obesidade está desenvolvendo diretrizes para que países em desenvolvimento possam basear suas políticas públicas. Halpern destacou que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já considerou medicamentos agonistas de GLP-1 como essenciais, com diretrizes focadas em países de baixa e média renda. A tendência é que países de alta renda ofereçam esses tratamentos para a maioria da população, enquanto os de baixa renda priorizarão grupos específicos, embora o tratamento precoce seja o ideal.
A linha de cuidados ideal para a obesidade
Atualmente, o único tratamento nacionalmente disponível no SUS para obesidade é a cirurgia bariátrica, que possui indicações restritas e exige prévio tratamento clínico de dois anos, algo que o SUS não oferece. Halpern criticou a falta de acompanhamento pós-cirúrgico, como a suplementação de vitaminas e o monitoramento nutricional, também inexistentes no sistema público.
Ele enfatizou que a disponibilidade de medicamentos no SUS não é suficiente sem profissionais qualificados para prescrever e acompanhar os pacientes, avaliando efeitos colaterais e eficácia. A falta de acompanhamento nutricional e de profissionais como educadores físicos e psicólogos também são gargalos. Halpern apontou o alto custo alegado pela Conitec como um obstáculo para a incorporação de novas medicações, contrastando com a inação que gera custos ainda maiores para a sociedade, estimados em 3% do PIB mundial.
O endocrinologista defende um ambiente de cuidado que inclua profissionais de saúde com conhecimento sobre obesidade, liberdade para prescrever medicamentos, a possibilidade de cirurgia quando indicada e acompanhamento adequado. Ele também criticou a dificuldade de acesso a locais para prática de exercícios físicos e o ambiente que favorece o consumo de alimentos ultraprocessados e de baixa qualidade, especialmente para populações vulneráveis.
Emagrecimento como status social e planos da Federação Mundial de Obesidade
Halpern concorda que o emagrecimento se tornou um símbolo de status social e financeiro, especialmente com a redefinição de padrões de beleza impulsionada pelos novos medicamentos. À frente da Federação Mundial de Obesidade, ele prioriza a educação para que mais profissionais de saúde compreendam a doença, a importância de sistemas de saúde robustos em países de baixa e média renda, o acesso à cobertura universal, o fomento à ciência em países periféricos e o combate à desinformação.
Ele reitera que prevenção e tratamento devem caminhar juntos, sem se excluírem. O avanço rápido dos medicamentos agonistas de GLP-1, segundo ele, não deve impactar negativamente as políticas de prevenção, mas sim complementá-las, em uma abordagem integrada para o controle da obesidade.
