Montadoras chinesas expandem presença no Brasil com produção local
A crescente presença das montadoras chinesas no mercado automotivo brasileiro está migrando da importação para a produção nacional. Empresas como BYD, GWM e Caoa Chery já operam com fábricas próprias no país, muitas delas instaladas em complexos industriais que antes pertenciam a fabricantes tradicionais. Essa estratégia visa não apenas aumentar a competitividade de seus veículos, mas também encurtar o tempo de entrada no mercado e reduzir riscos de investimento.
A GWM, por exemplo, assumiu a antiga fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP), onde já produz modelos como Haval H6 e a picape Poer P30. A BYD, líder entre as marcas chinesas no Brasil, revitalizou o complexo de Camaçari (BA), anteriormente da Ford, para iniciar sua produção local. Outras marcas, como Geely e Leapmotor, buscam parcerias para utilizar instalações já existentes, como as da Renault e Stellantis, respectivamente, acelerando a fabricação de seus modelos no país.
Essa movimentação estratégica é impulsionada pela busca por eficiência e redução de custos. Em vez de construir novas plantas do zero, o que demandaria de três a cinco anos entre licenciamento e início da produção em escala, as montadoras chinesas aproveitam infraestruturas já estabelecidas, incluindo galpões, sistemas elétricos e hidráulicos, licenças ambientais e, crucialmente, mão de obra especializada.
Oportunidades e Vantagens da Produção Nacional
A decisão de utilizar fábricas brasileiras já existentes oferece às montadoras chinesas a vantagem de encurtar significativamente o tempo para estabelecer operações de produção local. Além disso, a estratégia de começar com a montagem de kits semi-desmontados (SKD) e expandir gradualmente a produção local conforme a demanda se confirma, como explica a professora de economia Ingridhe de Moraes Magalhães, da PUC-PR, reduz o risco inicial.
“Em vez de comprometer bilhões de reais antes de saber como o consumidor brasileiro vai receber seus produtos, as empresas começam montando veículos a partir de grandes kits importados e vão aumentando gradualmente a produção local conforme as vendas crescem”, afirma Magalhães. Este modelo permite ajustar o ritmo de investimento de acordo com a consolidação da demanda, tornando a entrada no mercado mais resiliente.
Incentivos Fiscais e Política Industrial
A política industrial brasileira tem sido um fator determinante para o avanço das marcas chinesas. O programa Mover (Mobilidade Verde e Inovação), que substituiu o Rota 2030, destina R$ 19,3 bilhões em créditos financeiros entre 2024 e 2028. Esses créditos, atrelados a contrapartidas em pesquisa, desenvolvimento e produção, incentivam investimentos locais. O Mover oferece benefícios como IPI diferenciado para veículos sustentáveis e redução do imposto de importação para autopeças sem similar nacional, tornando a produção local mais atrativa.
Adicionalmente, a política tarifária, com a elevação gradual do imposto de importação para veículos eletrificados, atinge 35%, eleva o custo de importação e, consequentemente, favorece as empresas que optam pela produção nacional. Essa combinação de incentivos fiscais e barreiras tarifárias cria um ambiente propício para a consolidação das operações brasileiras das montadoras chinesas.
Desafios e Cenário Competitivo
A produção local é vista como um fator decisivo para a permanência das montadoras chinesas no Brasil. A dependência exclusiva de importações torna-se menos viável com o aumento das tarifas, pressionando as margens de lucro e a capacidade de competir por preço. A transição para uma produção mais completa, incluindo estampagem, soldagem, pintura e fabricação de componentes no país, será um indicador chave do compromisso dessas empresas com o mercado brasileiro, como planeja a BYD para 2027.
Um dos principais desafios é adaptar os veículos às particularidades do consumidor brasileiro, como o uso extensivo do etanol, que abre espaço para tecnologias híbridas e flex. A GWM já responde a essa demanda com o desenvolvimento de versões flex e híbridas flex para o mercado nacional. A intensa concorrência entre as próprias marcas chinesas, com 15 delas operando no país, também aponta para um cenário de consolidação.
“Não haverá espaço para todas as marcas crescerem simultaneamente. As empresas com maior capacidade financeira, redes de distribuição mais estruturadas, bom pós-venda e capacidade de construir reputação no país tendem a ganhar espaço, enquanto outras poderão deixar o mercado ou ser absorvidas”, avalia Magalhães. Atualmente, as dez maiores montadoras chinesas concentram 84% das vendas do grupo, e a consolidação do mercado já é uma realidade, com as marcas asiáticas respondendo por quase um quarto das vendas de veículos leves em menos de dois anos.
O interesse do consumidor brasileiro se concentra em poucas marcas. Segundo dados do Google Trends, a BYD lidera com 78% das buscas, seguida pela GWM com 15,6%. Outras como JAECOO, Caoa Chery e Leapmotor dividem o restante do interesse. A questão principal agora não é mais se as montadoras chinesas permanecerão no Brasil, mas quais delas conseguirão se consolidar e em que condições.
Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.
