A pressão para ser impecável em todas as áreas da vida moderna tem se mostrado um fardo pesado, gerando ansiedade e esgotamento. A boa notícia é que a felicidade pode estar justamente em aceitar que não precisamos, nem conseguimos, ser os melhores o tempo todo.
Em um mundo que valoriza incessantemente o desempenho e a superioridade, a ideia de que é preciso estar sempre no topo pode se tornar uma armadilha. A busca por ser o melhor em tudo, a todo momento, longe de ser um motor de crescimento, pode gerar o efeito oposto: frustração, um sentimento de vazio, medo de iniciar novos desafios e até mesmo transtornos psicológicos graves como burnout, ansiedade e depressão. Afinal, a realidade demonstra que ninguém consegue sustentar o pódio indefinidamente.
Thomas Curran, professor de psicologia na London School of Economics, tem estudado o perfeccionismo entre estudantes universitários e observa uma crescente preocupação com a perfeição nas gerações mais novas, em comparação com décadas passadas. Essa pressão, muitas vezes, é alimentada por uma sociedade que, desde cedo, nos ensina a competir e a valorizar o destaque. Na infância, boas notas garantem reconhecimento; na vida adulta, a saga se intensifica com a necessidade de se destacar em um mercado de trabalho saturado e de provar valor para ascender profissionalmente.
A pressão por excelência é ainda mais acentuada para grupos minorizados. Pessoas de periferia, mulheres, negros, LGBTQIAP+, pessoas com deficiência e outros grupos vulneráveis frequentemente sentem a necessidade de atingir um nível próximo à perfeição para comprovar seu potencial, tanto para si quanto para os outros. Essa mentalidade competitiva, muitas vezes inconsciente, pode invadir até mesmo esferas da vida onde a disputa não deveria ter lugar, como hobbies e relacionamentos interpessoais, gerando comparações e a sensação de estar sempre um passo atrás.
A Sabedoria da Moderação e a Lição do Arcadismo
Diante desse cenário, o médico e professor Daniel Barros, em seu livro “Viver É Melhor Sem Ter Que Ser O Melhor”, propõe uma reflexão inspirada nos princípios do Arcadismo. Esse movimento literário e artístico do passado, que resgatava ideais greco-romanos como comedimento, simplicidade e moderação, oferece uma perspectiva valiosa: é possível encontrar felicidade e contentamento ao desacelerar e optar por um ritmo mais equilibrado. A filosofia arcadiana nos lembra que o excesso, mesmo de algo útil, pode se tornar prejudicial, e que a moderação é essencial para discernir o que realmente importa e para absorver as experiências da vida de forma plena.
Aceitando a Mediocridade para Valorizar a Jornada
A valorização exacerbada da excelência transformou a mediocridade em um estigma. No entanto, a capacidade de aceitar estar na média, em muitos momentos, pode proporcionar uma experiência de vida mais leve e prazerosa. Quem se permite ser mediano tende a ter mais abertura para experimentar coisas novas e persistir na prática, sem a frustração imediata de não alcançar um nível de maestria instantâneo. Como aponta Daniel Barros, a ideia de que apenas quem está fora da média tem valor é insustentável, especialmente quando consideramos que a maioria das pessoas se encontra em uma faixa intermediária.
O foco excessivo nas conquistas, sem considerar os sacrifícios feitos, empobrece nossa visão de mundo. Ao celebrarmos apenas o sucesso em competições ou promoções, ignoramos o que deixamos de lado: tempo com a família, momentos de lazer, saúde mental. A reflexão sobre o que abrimos mão para alcançar nossos objetivos é tão importante quanto a própria conquista. Em vez de virar noites para atingir uma “perfeição” no trabalho, talvez seja mais proveitoso priorizar atividades que promovem bem-estar e relaxamento. A desaceleração é fundamental para que possamos avaliar nossas prioridades e encontrar um equilíbrio mais saudável entre o que fazemos e quem somos.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por The Summer Hunter e do livro “Viver É Melhor Sem Ter Que Ser O Melhor”, de Daniel Barros.
