A cauda que seduz: como víboras evoluíram para enganar suas presas
Um fascinante comportamento de caça, conhecido como “engodo caudal”, presente em diversas serpentes da família Viperidae, como cascavéis e jararacas, tem suas origens evolutivas desvendadas por pesquisadores brasileiros. Este engenhoso truque consiste em ondular a cauda de forma ritmada, mimetizando o movimento de presas como minhocas, atraindo assim animais menores para o bote fatal.
A pesquisa, publicada na revista científica Ethology Ecology & Evolution, lança luz sobre como essa estratégia se desenvolveu e se relaciona com as características e o ciclo de vida desses répteis. As pesquisadoras Aída Giozza e Veronica Slobodian, da Universidade de Brasília (UnB), lideraram o estudo, que analisou a distribuição do engodo caudal e de características associadas em centenas de espécies de víboras.
A abordagem utilizada pelos biólogos envolveu o mapeamento da distribuição de características específicas em um grupo de organismos com ancestralidade comum. Para isso, foi utilizada uma ampla filogenia dos viperídeos, abrangendo 263 espécies. A análise focou em 220 serpentes para as quais havia informações confiáveis sobre o uso do engodo caudal e aspectos correlacionados, como a coloração da cauda e a mudança de dieta ao longo da vida.
A cauda como isca e sua evolução
O engodo caudal é particularmente comum em serpentes jovens, que o utilizam para atrair presas de “sangue frio”, como lagartos e anfíbios. À medida que amadurecem, muitas espécies trocam essa estratégia por caças a presas de “sangue quente”, como mamíferos e aves. A pesquisa sugere uma forte conexão evolutiva entre o comportamento de engodo e a coloração da cauda, que frequentemente difere do restante do corpo, potencializando seu efeito de isca.
Acredita-se que essa estratégia evolutiva possa estar presente desde a origem do grupo Viperidae, sendo adaptada de diferentes maneiras pelas diversas espécies. Em viperídeos de menor porte, por exemplo, o engodo caudal pode ser mantido ao longo de toda a vida, sem a troca de presas preferenciais. No caso das cascavéis, o guizo em suas caudas pode ter evoluído a partir de uma função inicial de engodo, adquirindo posteriormente um papel de alerta.
Implicações para a sobrevivência
O estudo também explora as possíveis vantagens do engodo caudal para filhotes de cobras. Uma hipótese é que a estratégia reduz o risco de predação, pois permite que a jovem serpente atraia a presa até si, em vez de se expor ao procurar alimento. Outra possibilidade é que o engodo evite a competição direta com serpentes adultas, que dependem de fontes de alimento distintas.
O trabalho, que contou com o apoio da Capes e do CNPq, contribui significativamente para a compreensão da evolução de comportamentos complexos em animais e suas adaptações ao ambiente. Reuber Brandão, pesquisador da UnB e coautor do estudo, é também membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN).
