Europa enfrenta um aumento alarmante nas infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), com taxas de gonorreia e sífilis mais do que dobrando na última década, segundo dados recentes do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC). Embora a clamídia tenha apresentado uma leve queda após um pico em 2022, a tendência geral aponta para um cenário preocupante, que desafia as autoridades de saúde a reavaliar estratégias de prevenção e controle.
Acompanhar a incidência de ISTs é um desafio complexo devido à natureza assintomática de muitas infecções, testagens irregulares e a privacidade dos comportamentos sexuais. No entanto, os dados compilados pelo ECDC revelam um aumento expressivo. Em 2024, foram registrados cerca de 100 mil casos de gonorreia na Europa, um número três vezes maior do que em 2015. A sífilis também mais do que duplicou, atingindo aproximadamente 46 mil casos. Especialistas como Stela Bivol, da Organização Mundial da Saúde (OMS), confirmam que não se trata apenas de um efeito estatístico da maior oferta de testes, mas sim de um “aumento real da transmissão em curso”. A retomada dos serviços de saúde após a pandemia de Covid-19 pode ter contribuído para o salto inicial, mas a alta contínua sugere fatores mais profundos.
As causas para esse ressurgimento são multifacetadas e ainda objeto de debate. Embora aplicativos de relacionamento sejam frequentemente apontados como facilitadores da troca de parceiros, evidências concretas que liguem diretamente o uso dessas plataformas ao aumento das ISTs são escassas. Especialistas como Henry de Vries alertam para a cautela, lembrando que esses aplicativos já existiam antes do atual surto. Outra hipótese levantada é a diminuição no uso de preservativos. Um estudo da OMS com adolescentes europeus indicou uma queda no uso declarado, mas faltam dados abrangentes sobre a população adulta, que concentra a maioria dos casos.
Uma teoria mais específica sugere que o uso da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) contra o HIV, embora essencial para a prevenção, pode levar alguns homens, especialmente gays, a reduzir o uso de preservativos em outras ISTs. Estudos preliminares corroboram essa ideia, mas destacam a necessidade de mais pesquisas, considerando que usuários de PrEP são submetidos a testes mais frequentes, o que pode distorcer a percepção do risco.
Os riscos ocultos e as populações vulneráveis
As consequências da detecção tardia de ISTs podem ser devastadoras. Clamídia e gonorreia, se não tratadas, podem levar a complicações como infertilidade. A sífilis, por sua vez, pode ser fatal e seu aumento tem um lado particularmente sombrio: o crescimento da sífilis congênita, transmitida de mães para bebês. Entre 2023 e 2024, o número de casos dobrou, atingindo 140, com focos em países como Bulgária, Portugal e Hungria.
Os dados mais recentes revelam que o aumento das ISTs não se concentra em um único grupo demográfico. Embora as taxas de gonorreia tenham caído entre homens jovens, elas aumentaram entre os mais velhos e, no geral, entre os homens. Entre as mulheres, a gonorreia recuou, mas a sífilis aumentou, especialmente na faixa etária de 20 a 34 anos. O surto também afeta ambos os sexos e orientações sexuais, com um aumento significativo de sífilis e gonorreia entre heterossexuais desde a pandemia.
Geograficamente, o problema é continental, com altas acentuadas em países como Bulgária, França, Itália, Bélgica e Hungria. Países com sistemas de vigilância menos robustos, como a Romênia, podem apresentar taxas enganosamente baixas, o que dificulta a alocação de recursos e a conscientização pública. O ECDC ressalta a necessidade de melhorar o monitoramento, incluindo dados sobre a proporção de grupos vulneráveis testados, para contextualizar estatisticamente as taxas registradas.
Resistência a antibióticos e desafios na prevenção
O tratamento de ISTs com antibióticos, embora necessário, acarreta o risco de desenvolvimento de resistência. A gonorreia já apresenta cepas altamente resistentes, enquanto clamídia e sífilis ainda não atingiram esse patamar, mas a questão da resistência impõe ponderação entre benefícios e riscos no tratamento. Os Países Baixos, por exemplo, modificaram suas diretrizes ao descontinuar a triagem de clamídia assintomática em alguns casos, com base em estudos que indicam menor probabilidade de prejuízo à fertilidade.
A prevenção da sífilis congênita, por exemplo, poderia ser mais eficaz com testagem direcionada durante a gravidez. Apesar de a maioria dos países da UE testar para sífilis no primeiro trimestre, menos da metade segue as recomendações para testes adicionais em fases posteriores da gestação, especialmente para gestantes de maior risco.
Um dos maiores obstáculos na implementação de políticas eficazes é a desatenção a grupos de maior risco, como homens que fazem sexo com homens, migrantes e profissionais do sexo. O estigma e a discriminação associados a esses grupos dificultam a busca por testes e tratamento, um cenário que, segundo Bivol, pode se repetir para outras ISTs, assim como ocorre com o HIV em algumas regiões da Europa Central e Oriental.
No entanto, o próprio aumento das taxas pode servir como catalisador para ações. Na Hungria, um surto de sífilis congênita levou a uma triagem mais rigorosa. Pesquisas recentes indicam uma queda em casos de clamídia em alguns países, possivelmente como resultado de campanhas de saúde pública que incentivaram práticas sexuais mais seguras após um salto anterior nas taxas de gonorreia. Em última análise, o medo do contágio e suas consequências pode ser um poderoso motor para a mudança de comportamento e a adoção de medidas preventivas mais eficazes.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The Economist.
