Avanços no rastreamento do câncer de colo de útero trazem novas esperanças e desafios.
Nos últimos anos, o rastreamento do câncer de colo de útero passou por transformações significativas, com a introdução de novas opções de exames e a atualização de recomendações médicas. O objetivo é claro: reduzir os casos e as mortes evitáveis causadas por esta doença, que ainda representa um problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Apesar dos avanços na prevenção, como a vacinação contra o HPV e os exames de detecção precoce, o câncer de colo de útero continua a ser uma preocupação.
No Brasil, o Ministério da Saúde estima que em 2025 o câncer de colo de útero tenha sido responsável por 7.249 mortes, o equivalente a quase 20 óbitos diários. As projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam um aumento no número de novos diagnósticos, com cerca de 19,3 mil casos anuais previstos para o triênio 2026-2028. Globalmente, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc) aponta que a doença causa 348 mil mortes por ano, sendo a quarta causa mais comum de morte por câncer entre mulheres.
Barreiras de acesso aos serviços de saúde e o desconforto ou a intolerância de algumas pacientes com exames ginecológicos tradicionais, como o Papanicolau, contribuem para esse cenário. No entanto, a medicina evoluiu para oferecer alternativas que tornem o rastreamento menos doloroso e mais acessível, sem comprometer sua eficácia.
Novas Opções de Testes e a Vantagem da Autocoleta
O exame Papanicolau, tecnicamente conhecido como citologia cervical, ainda é amplamente utilizado para detectar células pré-cancerosas e cancerosas no colo do útero. Contudo, o avanço no conhecimento sobre o Papilomavírus Humano (HPV), agente causador da maioria dos casos de câncer de colo de útero, abriu novas frentes de rastreamento. O teste de HPV, que identifica a presença do vírus, pode sinalizar o risco de desenvolvimento da doença em estágios mais iniciais.
Uma das grandes inovações é a possibilidade da autocoleta. Enquanto a citologia cervical exige a coleta da amostra por um profissional de saúde, o teste de HPV pode ser realizado com amostras coletadas pela própria paciente, seja do colo do útero ou da vagina. No Brasil, o Inca considera a autocoleta uma estratégia promissora para ampliar o acesso ao rastreamento, especialmente para mulheres que não realizam o exame convencional. A precisão desses testes de autocoleta, inclusive para uso doméstico, tem sido comprovada por estudos e aprovada por agências reguladoras internacionais.
Qual o Melhor Exame e a Frequência Ideal?
O consenso entre especialistas é que, a partir dos 30 anos, o teste de HPV é a opção mais eficaz para o rastreamento, pois identifica o risco mais cedo. Para pessoas mais jovens, na faixa dos 20 anos, há divergências. Diretrizes como as do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) e da Women’s Preventive Services Initiative (WPSI) recomendam a citologia cervical para este grupo, pois infecções por HPV nessa idade costumam ser transitórias e desaparecer sem causar danos. Já a American Cancer Society (ACS) sugere o teste de HPV a partir dos 25 anos.
As recomendações de frequência também variam. De modo geral, a citologia é indicada a cada três anos para mulheres de 21 a 29 anos. A partir dos 30 anos, o teste de HPV coletado por profissional de saúde é recomendado a cada cinco anos, ou a autocoleta de HPV a cada três anos. A ACS, por exemplo, sugere rastreamento de HPV para mulheres de 25 a 65 anos, com testes a cada cinco anos se coletados por profissional e a cada três anos se por autocoleta. É importante notar que as diretrizes se aplicam a pacientes de risco médio e com resultados normais; casos de risco elevado ou exames anormais podem exigir acompanhamento mais frequente.
Todas as principais diretrizes médicas concordam que o rastreamento pode ser interrompido após os 65 anos, desde que os exames anteriores tenham apresentado resultados normais. A decisão final sobre o tipo de exame e a frequência ideal deve ser sempre discutida com o médico, levando em conta o histórico de saúde individual.
A Importância do Acompanhamento Após a Coleta
A autocoleta, embora facilite o acesso, exige atenção especial. Pacientes com resultado positivo para HPV precisam de exames adicionais. Se a amostra inicial foi coletada por um profissional, o material pode ser reutilizado para esses exames complementares. No caso da autocoleta, amostras vaginais não permitem essa reutilização, necessitando de uma nova coleta em consulta médica. A falta de acompanhamento após um resultado positivo, independentemente do método de coleta, anula os benefícios do rastreamento.
“Se as pessoas fizerem a autocoleta, mas não derem seguimento a resultados positivos, não teremos avançado em nada”, alerta Akiva Novetsky, diretor médico de qualidade e segurança do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do Westchester Medical Center. No entanto, ele ressalta que a autocoleta, com o devido acompanhamento, é “muito superior” à ausência de testes.
O câncer de colo de útero é uma doença prevenível e tratável, especialmente quando detectado em seus estágios iniciais. As novas tecnologias e as recomendações atualizadas visam tornar o rastreamento mais eficaz e acessível, mas a participação ativa das pacientes e o diálogo contínuo com os profissionais de saúde são fundamentais para o sucesso dessas estratégias.
