Cães demonstram percepção sofisticada de emoções humanas
A antiga relação entre humanos e cães pode ter moldado a cognição e as emoções de ambas as espécies de maneiras surpreendentes. Um estudo recente, utilizando imagens de ressonância magnética funcional (fMRI), sugere que os cães possuem uma capacidade notável de interpretar expressões faciais humanas, distinguindo entre emoções como alegria, medo e raiva. Essa descoberta corrobora a intuição de muitos tutores que observam a sensibilidade de seus companheiros caninos aos seus estados emocionais.
Laura Cuaya, principal autora da pesquisa e afiliada à Universidade de Viena, destaca que, ao contrário de primatas que compartilham um ancestral comum com humanos, os cães evoluíram por um caminho distinto. No entanto, o processo de domesticação teria impulsionado o desenvolvimento de habilidades sociais essenciais para a compreensão mútua e a cooperação.
As conclusões, publicadas no periódico iScience, são fruto de um trabalho colaborativo que envolveu pesquisadores das Universidades Autônoma do México e instituições húngaras. Vinte cães, predominantemente da raça border collie, mas também incluindo labradores, golden retrievers e vira-latas, participaram do estudo ao lado de seus tutores.
Desvendando o processamento neural canino
Os animais foram treinados para permanecerem em uma posição específica dentro de equipamentos de fMRI, semelhante à posição de “esfinge”, enquanto visualizavam uma série de fotografias de rostos humanos. Para garantir a objetividade, foram utilizadas imagens de indivíduos desconhecidos pelos cães, pois estudos anteriores já indicavam uma maior sensibilidade canina às expressões de seus cuidadores habituais.
Pesquisas anteriores já haviam apontado que cães são capazes de reconhecer a alegria em rostos humanos e diferenciá-la de emoções negativas. No entanto, o novo estudo aprofunda essa compreensão, investigando se os cães vão além da simples distinção entre “valência positiva” e “negativa” das emoções.
Os resultados confirmaram que o cérebro dos cães, especificamente o córtex temporal do hemisfério cerebral direito, exibe ativação distinta ao processar rostos neutros em comparação com rostos alegres. Essa confirmação reforça a capacidade canina de discernir a alegria de emoções negativas.
Diferenciação sutil entre emoções negativas
A análise das redes de ativação neural revelou um achado intrigante: os cérebros dos cães parecem ser capazes de diferenciar certas emoções negativas entre si. Especificamente, os cães demonstraram distinguir entre expressões de raiva e medo, e entre tristeza e medo. Contudo, a diferenciação entre raiva e tristeza não foi tão clara em testes binários, onde uma emoção era apresentada em par com a outra.
Os pesquisadores levantam a hipótese de que a facilidade em identificar a alegria possa estar ligada à formação de laços com tutores e ao sistema de recompensa, essencial para o aprendizado e o comportamento social canino. A domesticação, que gerou uma dependência mútua, pode ter intensificado essa percepção.
No que diz respeito às emoções negativas, a capacidade de distinguir entre medo e raiva, e tristeza e medo, pode estar relacionada à intensidade emocional percebida. Emoções como medo e raiva, que tendem a ser mais intensas, poderiam ser mais facilmente detectadas do que a sutileza da tristeza.
É fundamental notar que, em interações cotidianas, a interpretação das emoções humanas pelos cães não se limita às expressões faciais, mas também engloba linguagem corporal e tom de voz, fatores que podem ampliar ainda mais a sua capacidade de compreensão.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo periódico especializado iScience.
