A jornada de Sam Bell é um testemunho de como as características consideradas negativas na infância podem se transformar em forças motrizes para o sucesso na vida adulta. Diagnosticada com dislexia tardiamente, Bell transformou suas dificuldades escolares em um “superpoder”, construindo uma carreira de sucesso como estilista e dona de salão de beleza.
Na escola, Sam Bell era descrita como “muito barulhenta, travessa demais, muito intensa”. O medo de ler em voz alta para os colegas a levava a se comportar mal, em uma tentativa de ser expulsa da sala de aula. Sem perspectivas de trabalho ao abandonar os estudos, Bell foi diagnosticada com dislexia, uma condição neurológica que afeta o processamento de informações pelo cérebro. Atualmente, aos 47 anos, ela comanda um salão de beleza em Bristol, Inglaterra, e atua como estilista para cinema, televisão e desfiles de moda, além de mentorar jovens com a mesma condição.
Aos 17 anos, a personalidade extrovertida de Bell foi seu único trunfo ao procurar emprego em um salão de beleza. Precisando de trabalho para não ser expulsa de casa, ela aceitou uma vaga de aprendiz por um salário modesto. Para sua surpresa, a função envolvia conversar com os clientes enquanto realizava tarefas básicas. Essa atividade, aparentemente simples, foi libertadora para Bell, que se sentiu realizada ao descobrir que era boa em algo. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela BBC News Brasil.
Da sala de aula ao estrelato da moda
A dislexia, que antes era uma fonte de sofrimento e dificuldades acadêmicas, tornou-se a base do sucesso profissional de Bell. Ela descreve sua condição como um “superpoder”, atribuindo à dislexia uma imaginação aguçada e uma facilidade de comunicação excepcionais. Após mais de uma década trabalhando no primeiro salão, ela abriu seu próprio empreendimento em 2009. Sua expertise a levou a trabalhar com atores e celebridades em produções cinematográficas e televisivas, além de atender modelos em semanas de moda internacionais em Londres, Paris, Nova York e Milão.
A dislexia é definida pela Associação Britânica de Dislexia como uma diferença neurológica permanente que impacta a forma como o cérebro processa informações. Embora possa gerar desafios na educação e no cotidiano, cada indivíduo disléxico possui um perfil único de potencialidades e dificuldades. Muitas pessoas com dislexia desenvolvem resiliência e habilidades valiosas de solução de problemas. Estima-se que pelo menos 10% da população mundial, cerca de 800 milhões de pessoas, possuam a condição.
Desafios e oportunidades para neurodivergentes
A falta de identificação e intervenção precoce para a dislexia pode ter impactos duradouros, tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. A pesquisa da Fundação KPMG de 2006 apontou que os custos sociais da ignorância sobre o analfabetismo relacionado à dislexia incluem desemprego, problemas de saúde mental, custos com programas de recuperação e comportamentos antissociais. Um relatório de comissão parlamentar no Reino Unido evidenciou barreiras sistêmicas de emprego para trabalhadores neurodivergentes, destacando a falta de conscientização social, falhas no apoio governamental e discriminação nos locais de trabalho. No entanto, o relatório também apresentou exemplos de boas práticas, ressaltando que a maioria das pessoas neurodivergentes é capaz e qualificada, mas os processos de recrutamento frequentemente as incapacitam.
Sam Bell agora se dedica a ajudar outros jovens a ingressar no setor de beleza através de programas de aprendizado em seu salão. Ela vê essas iniciativas como uma oportunidade crucial para aqueles sem formação acadêmica formal. Tony Mitchell, que trabalha com Bell há mais de uma década, relata que o ambiente de trabalho é “muito solidário” e o ajudou a ganhar confiança. Mitchell, que também é disléxico, sentiu que em seu emprego anterior não teve o suporte necessário para aprender as nuances da profissão, algo que encontrou no salão de Bell, onde se sente pertencente.
