Cientistas se preparam para usar eclipse solar total como laboratório cósmico
Um eclipse solar total, que será visível em partes da Europa na próxima quarta-feira, oferece aos cientistas uma oportunidade ímpar de aprofundar o conhecimento sobre a nossa estrela, o Sol. Durante os breves minutos em que a Lua cobrirá completamente o disco solar, pesquisadores se dedicarão a estudar o campo magnético, a atmosfera e os fenômenos climáticos extremos que emanam da nossa estrela e que, por vezes, afetam a vida na Terra.
A trajetória da totalidade do eclipse cruzará áreas da Groenlândia, Islândia, norte da Rússia, o oceano Atlântico, e se estenderá pela Espanha e um pequeno trecho de Portugal. Em outras regiões do hemisfério norte, como partes dos Estados Unidos (do Alasca à Carolina do Norte), a maior parte do Canadá, grande parte da Europa e o noroeste da África, será possível observar um eclipse solar parcial.
A tradição de utilizar eclipses para descobertas científicas é antiga. Um exemplo notório ocorreu em 29 de maio de 1919, quando a observação de um eclipse solar confirmou a teoria da relatividade de Albert Einstein. Naquela ocasião, o desvio da luz das estrelas, causado pelo efeito de lente gravitacional, tornou-se visível quando o brilho intenso do Sol foi bloqueado, validando as previsões do físico.
A próxima oportunidade de observação, com duração de um minuto e 40 segundos em sua totalidade na Espanha, visa desvendar os mecanismos por trás da atividade solar. “Nosso trabalho busca compreender os mecanismos físicos que estão por trás da atividade do Sol”, explicou Allan Sacha Brun, astrofísico da Comissão Francesa de Energia Atômica (CEA). Segundo ele, o desenvolvimento de modelos explicativos permite situar o Sol em seu contexto evolutivo, desde seu nascimento até sua eventual morte.
A complexidade do Sol e seus efeitos na Terra
O Sol está em constante emissão de matéria e partículas carregadas, um processo que por vezes desencadeia tempestades solares. Essas erupções lançam imensas quantidades de plasma e outros materiais no espaço. Quando esse material interage com o campo magnético terrestre, pode causar desde desativação de satélites e riscos a astronautas até a formação das espetaculares auroras boreais e austrais.
Esses fenômenos seguem um ciclo regular, com pico a cada 11 anos. O Sol atingiu o ápice de seu 25º ciclo em 2024. Durante o eclipse, os cientistas da CEA focarão seus estudos na coroa solar, a camada mais externa da atmosfera solar. A peculiar coincidência de que a Lua é cerca de 400 vezes menor que o Sol, mas também 400 vezes mais próxima, permite que o satélite bloqueie a luz solar direta, tornando visível a coroa.
A coroa solar, que se estende por milhões de quilômetros, é um milhão de vezes menos brilhante que a fotosfera (a superfície visível do Sol), mas pode atingir temperaturas de até 2 milhões de graus Celsius. Na ausência de eclipses, o estudo da coroa é feito com coronógrafos, instrumentos em satélites que filtram a luz da fotosfera. No entanto, eclipses totais também oferecem uma visão rara da cromosfera, a camada atmosférica intermediária.
Novas missões e a busca por previsibilidade
Cientistas da Agência Espacial Europeia (ESA) também analisarão o eclipse com o objetivo de aprimorar a compreensão sobre os ventos solares. “Por que as tempestades solares se propagam dessa maneira? Qual é sua estrutura? E podemos desenvolver modelos que nos permitam prevê-las?”, questionou Carole Mundell, diretora de Ciência da ESA, destacando os desafios em prever esses eventos.
Missões como a Solar Orbiter, lançada em 2020, já coletam dados valiosos sobre a atmosfera e os ventos solares. Os eclipses funcionam como testes cruciais para validar a precisão dos modelos científicos desenvolvidos. A ESA também opera a missão Proba-3, que utiliza três espaçonaves em formação para criar eclipses solares artificiais, além de planejar a missão Mesom, que visa obter observações mais prolongadas ao se posicionar na sombra da Lua.
Para a física Lucie Green, da University College London, os eclipses solares totais possuem um poder inspirador que transcende a ciência, impactando artistas e pesquisadores. “O que observamos na Terra inspira aquilo que queremos realizar em nossas pesquisas de ciência espacial”, concluiu.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Agência France-Presse (AFP).
