A audiência do ex-diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), Anthony Fauci, no Congresso americano, tem sido explorada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro para reacender o debate político em torno da pandemia de Covid-19. Vídeos divulgados por figuras como Eduardo Bolsonaro, Magno Malta e Nikolas Ferreira repetem questionamentos sobre vacinas, máscaras e medidas sanitárias, alegações que, segundo especialistas, não são sustentadas por evidências científicas. O contexto é a proximidade das eleições legislativas nos Estados Unidos e das eleições gerais no Brasil, em outubro.
A convocação de Fauci, ex-principal assessor médico da Casa Branca, ocorreu em 29 de julho, em uma investigação sobre sua atuação durante a pandemia. Durante o depoimento, Fauci invocou mais de cem vezes a Quinta Emenda da Constituição americana, que protege contra a autoincriminação, gerando irritação em parlamentares republicanos. A defesa de Fauci afirmou que o uso do dispositivo é amparado pela lei e não constitui admissão de culpa, sendo um instrumento comum no sistema judicial americano. Especialistas ouvidas pela BBC News Brasil ressaltam que o ato de Fauci não altera o conhecimento científico consolidado sobre a Covid-19, vacinas ou tratamentos.
A audiência foi convocada pelo senador republicano Rand Paul, que há anos acusa Fauci de tentar encobrir a origem da Covid-19 e de financiar pesquisas em Wuhan, China. A origem da pandemia permanece um tema de debate, com relatórios de inteligência americanos apresentando conclusões divergentes sobre a hipótese de transmissão natural ou vazamento de laboratório. A Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda considera a transmissão natural a hipótese mais bem sustentada.
Exploração política e desinformação
Após a audiência, o campo bolsonarista intensificou a divulgação de narrativas que buscam validar a gestão do ex-presidente durante a crise sanitária. Eduardo Bolsonaro publicou que as pessoas deveriam pedir desculpas ao seu pai, alegando que ele foi culpado injustamente devido a fake news sobre vacinas. Magno Malta e o jornalista Paulo Figueiredo ecoaram o discurso de que “Bolsonaro tinha razão”. A médica Mayra Pinheiro, conhecida como “capitã Cloroquina”, afirmou que Fauci “mentiu e foi desmascarado”.
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo que ultrapassou 37 milhões de visualizações no Instagram, onde alega, sem apresentar provas, que diários pessoais de Fauci revelariam contradições e que o médico teria sofrido efeitos adversos de vacinas. Ferreira também sustentou que Fauci abandonou a hidroxicloroquina após posicionamento de Donald Trump, o que, segundo ele, impediu um tratamento que poderia ter salvado milhões. Especialistas refutam essas afirmações, destacando a falta de respaldo científico para a eficácia da hidroxicloroquina e ivermectina em grandes ensaios clínicos, e a monitorização de efeitos adversos das vacinas.
O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello também se manifestou, afirmando que a narrativa da pandemia está sendo desmantelada e que Bolsonaro e médicos que questionaram medidas foram injustamente rotulados. Ele defendeu que o governo buscou equilibrar saúde e economia, sem negar a ciência.
Especialistas contestam narrativas
Cientistas ouvidas pela BBC News Brasil afirmam que as alegações de Nikolas Ferreira e outros aliados de Bolsonaro entram em conflito com o conhecimento científico acumulado. A infectologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, refuta a ineficácia de máscaras, a utilidade da hidroxicloroquina e ivermectina, e o ocultamento de efeitos adversos de vacinas. Ela ressalta que invocar a Quinta Emenda por Fauci não altera o consenso científico e que a desinformação muitas vezes combina fatos verdadeiros com conclusões sem embasamento.
Garrett reconhece falhas na condução da pandemia, como mudanças de recomendação e impactos sociais, mas reitera que isso não invalida a importância das vacinas na redução de casos graves e mortes. Para ela, uma revisão honesta dos erros não pode servir para defender medicamentos ineficazes ou negar a ciência.
Impacto eleitoral e continuidade da desinformação
A cientista política Carolina Botelho, pesquisadora do INCT/SANI/CNPq, vê a divulgação desses vídeos como uma estratégia eleitoral para mobilizar a base bolsonarista em torno de um tema polarizador. Segundo Botelho, o objetivo não é reabrir o debate científico, mas reforçar convicções e gerar o efeito de viés de confirmação. Essa tática, segundo ela, é recorrente na extrema-direita e se fortalece com o uso das redes sociais.
Botelho avalia que a estratégia pode ter alcance limitado, pois a maioria da população brasileira acredita nas vacinas. Por outro lado, a desinformação sobre a pandemia nunca cessou, segundo Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP. Ela aponta a falta de responsabilização e a ausência de uma política de memória como fatores que facilitam a persistência dessas narrativas. Ventura conclui que a audiência de Fauci está sendo usada politicamente, mas não modifica o conhecimento científico acumulado desde o início da pandemia, servindo apenas para alimentar narrativas políticas.
