Psicoterapia assistida por psicodélicos ganha adeptos, mas levanta preocupações
A psicoterapia assistida por substâncias psicodélicas, como MDMA, cannabis e cetamina, tem se consolidado como uma promissora ferramenta para o tratamento de transtornos mentais, especialmente traumas. No entanto, a crescente atenção da indústria farmacêutica e a pressão por regulamentação levantam preocupações sobre a descaracterização da abordagem terapêutica, com o risco de priorizar a molécula em detrimento da experiência subjetiva do paciente.
A psicoterapeuta Kari Gleiser, que se dedica há quatro anos à pesquisa e prática com essas substâncias, alerta para o que ela chama de “lado sombrio” dessa tendência. Segundo Gleiser, a ideia de desvincular a experiência psicodélica da psicoterapia, ou de administrá-la de forma dissociada do acompanhamento profissional, pode comprometer o processo curativo.
“Essas pessoas acham que podem cortar até a experiência. Vamos dar de noite enquanto está dormindo”, expressa Gleiser, criticando a visão utilitarista que ignora a profundidade do estado alterado de consciência. Ela defende que a integração da substância com a terapia é fundamental para acessar e processar emoções profundas, algo que, em sua visão, é diluído quando o foco é apenas a substância ou o lucro. As informações foram reunidas a partir de entrevistas e declarações de Kari Gleiser.
A força da experiência e a importância da conexão
Kari Gleiser, que juntamente com seu marido, o físico Marcelo Gleiser, comanda a Ilha de Conhecimento na Toscana, um retiro focado no florescimento humano, compara a psicoterapia assistida por psicodélicos a um casamento perfeito. Sua experiência com a psicoterapia dinâmica experiencial acelerada (AEDP) a levou a buscar ferramentas que amplificassem a intensidade das experiências emocionais, e os psicodélicos se mostraram eficazes nesse sentido.
“Sou viciada em ter experiências, é a coisa que eu mais adoro na vida, experiências intensas”, afirma a ultramaratonista. Ela explica que substâncias como o MDMA provocam uma “inundação de empatia”, abrindo caminho para o trabalho terapêutico. A AEDP parte do princípio de que a psicopatologia não reside apenas no trauma em si, mas na solidão vivenciada ao lidar com ele. Nesse contexto, a presença ativa e amparadora do terapeuta é crucial, uma postura que se complementa com o estado amplificado de consciência proporcionado pelos psicodélicos.
Regulamentação e os perigos do “capitalismo psicodélico”
Apesar do potencial terapêutico demonstrado, a regulamentação de substâncias como o MDMA para uso terapêutico ainda enfrenta obstáculos, como o recente fracasso na agência de fármacos FDA dos Estados Unidos. Enquanto isso, Gleiser trabalha com cannabis e cetamina, substâncias que, segundo ela, “criam estado alterado de consciência, deixam a pessoa mais no corpo, mais no inconsciente. Abrem paisagens bem profundas e amplificam o poder curativo do próprio paciente”.
Contudo, a psicoterapeuta demonstra forte preocupação com a entrada massiva da indústria farmacêutica e com iniciativas políticas que visam acelerar a pesquisa psicodélica, como a ordem executiva de Trump. Ela teme que essa “Big Pharma” psicodélica possa priorizar a comercialização das moléculas e o uso contínuo, em detrimento da complexidade da psicoterapia e da vivência subjetiva. “Se as pessoas só quiserem pensar em como maximizar o dinheiro que vão fazer com isso, vai-se por um caminho muito ruim, muito escuro, que é uma falta de ética dos profissionais de saúde”, sentencia Gleiser, ressaltando a necessidade de um cuidado ético e humano no uso dessas potentes ferramentas terapêuticas.
