Curitiba
Uma promissora vacina terapêutica, desenvolvida a partir de células do sistema imunológico, está em fase de testes no Paraná com o objetivo de combater o câncer do córtex da adrenal, um tipo de tumor agressivo que afeta com maior frequência a população infantil. A abordagem inovadora visa oferecer uma nova opção de tratamento para pacientes que não respondem adequadamente à quimioterapia.
A terapia celular funciona como um coquetel biológico, onde as células do sistema imune do paciente são estimuladas a reconhecer e atacar as células tumorais. Os experimentos iniciais, realizados em laboratório (in vitro), demonstraram a capacidade da vacina em combater o tumor. A próxima etapa crucial será o início dos testes em camundongos, programado para a segunda metade de setembro.
O projeto é liderado por Bonald Cavalcante de Figueiredo, diretor do Biobanco do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe (IPP), ligado ao Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Instituto Pelé Pequeno Príncipe.
Um tumor raro com alta agressividade
O câncer do córtex da adrenal é um tumor raro que se origina na camada externa das glândulas suprarrenais. Apesar de sua baixa incidência, é considerado um dos tipos de câncer mais agressivos na infância. O diagnóstico precoce e o tratamento cirúrgico aumentam significativamente as chances de cura. No entanto, para pacientes diagnosticados tardiamente ou que não respondem aos tratamentos convencionais, a busca por novas alternativas terapêuticas torna-se fundamental.
“É para esses casos que acreditamos que a vacina terapêutica pode ser promissora”, afirma Figueiredo. A necessidade de novas abordagens é ainda mais evidente em regiões como o Paraná, onde um mapeamento genético realizado pelo IPP identificou uma frequência elevada de uma variante específica do gene TP53 (p.R337H), associada ao desenvolvimento do carcinoma adrenal. Essa variante está presente em mais de 90% dos casos infantis do tumor no estado, o que justifica a concentração de pacientes atendidos no Hospital Pequeno Príncipe e a utilização de amostras tumorais do biobanco para o desenvolvimento da vacina.
A ciência por trás da vacina terapêutica
O desenvolvimento da vacina envolve um processo complexo de fusão celular. Cientistas utilizam amostras tumorais para fundi-las com monócitos, que posteriormente se transformam em células dendríticas. Essas células dendríticas são capazes de apresentar proteínas do tumor na superfície, funcionando como um alerta para o sistema imunológico. A célula fusionada, carregando características do tumor e do sistema dendrítico, passa a exibir marcadores tumorais que são reconhecidos pelos linfócitos T, células de defesa responsáveis pela memória imunológica.
A interação entre o linfócito T e a célula tumoral é otimizada para um contato rápido e eficaz. “Essa ligação é o foco do nosso trabalho, que fomos desenvolvendo e aprendendo qual a melhor forma de preparar o linfócito ativado contra alvos na célula tumoral. E a junção dos dois é o que a gente chama de vacina terapêutica”, explica o médico.
Próximos passos e potencial impacto
A pesquisa agora se concentra em testes pré-clínicos em camundongos, que devem durar cerca de um ano. Serão realizadas análises genômicas e proteômicas para aprofundar o entendimento dos marcadores celulares envolvidos na resposta imunológica. Caso os resultados neste modelo animal confirmem a eficácia observada in vitro, o grupo de pesquisa pretende avançar para os estudos clínicos em humanos.
O potencial dessa vacina vai além do tratamento do câncer do córtex da adrenal. “Se conseguirmos provar que essa estratégia funciona para o tumor do córtex da adrenal, ela poderá servir de base para pesquisas em outros tipos de câncer”, ressalta Figueiredo. A esperança é que essa inovação possa, no futuro, oferecer novas perspectivas de cura para crianças com tumores agressivos e de difícil tratamento.
