Aldeia Xandó se destaca com iniciativa que atrai visitantes em busca de imersão cultural e contato com a natureza.
Na Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, localizada em Porto Seguro, Bahia, a comunidade Pataxó da aldeia Xandó encontrou no turismo de base comunitária uma estratégia fundamental para sua sobrevivência e afirmação cultural. Há duas décadas, o projeto de turismo, que se estende pela reserva Porto do Boi, próximo ao distrito de Caraíva, tornou-se uma fonte de renda alternativa para diversas famílias, permitindo o financiamento de obras na aldeia e o apoio a negociações políticas das lideranças.
Os visitantes, atraídos pela promessa de uma experiência autêntica, embarcam em passeios rio acima, onde são convidados a descalçar os sapatos como um gesto de respeito e imersão. A jornada os conduz por paisagens rurais até um oásis que busca replicar a floresta nativa, culminando na Oca Mãe, uma estrutura circular que serve como palco para as atividades culturais. O custo do passeio, incluindo almoço, é de R$ 150, valor que é distribuído igualmente entre os membros da comunidade que participam da iniciativa.
As informações foram reunidas a partir de relatos da própria comunidade e observações de visitantes.
Experiência Cultural e Espiritual
A programação diária na aldeia começa com a recepção aos turistas, que são recebidos com pinturas corporais realizadas com técnicas ancestrais e tintas à base de argila. A pintura, descrita como “wekanã ug werymehê” – paz e amor na língua Pataxó – simboliza a conexão com os valores da comunidade. Embora o idioma Patxohã esteja em processo de retomada e não possua falantes nativos, expressões isoladas são utilizadas para enriquecer a comunicação com os visitantes.
Após as pinturas, os visitantes têm um momento dedicado a registros fotográficos, utilizando adereços tradicionais como cocares e chocalhos sagrados. Em seguida, reúnem-se na Oca Mãe para uma palestra de aproximadamente uma hora, ministrada por uma liderança Pataxó. A apresentação aborda a história, cultura e costumes do povo, mesclando mensagens de paz, respeito à natureza e motivação, como destaca Raoni Pataxó, um dos palestrantes: “As pessoas chegam aqui com poucas informações sobre nós. O que fazemos as ajuda a saber que ainda existimos, mesmo que não seja possível aprofundar tanto na nossa realidade.”
O Ritual do Rapé e a Gastronomia Ancestral
O ápice da vivência cultural é um ritual que envolve a fumaça da amescla e o uso do rapé. Ao som de cantos indígenas, a resina da amescla é defumada, criando um ambiente propício para a aplicação do rapé, uma substância sagrada preparada com tabaco moído e cinzas de raízes. A aplicação, feita com cuidado e respeito às propriedades medicinais da substância, provoca uma intensa sensação nas vias respiratórias, lacrimejamento e uma breve queda na pressão, seguida por uma sensação de tranquilidade. Os líderes enfatizam que o rapé não deve ser consumido de forma recreativa, alertando para suas potentes reações.
O almoço é servido em um refeitório comunitário, com pratos típicos como peixe assado em folha de palmeira, farinha de mandioca e banana-da-terra. Os visitantes são incentivados a comer com as mãos, em tigelas de cerâmica, resgatando um costume ancestral que, segundo Raoni Pataxó, foi gradualmente abandonado com a influência da cultura não indígena. Essa prática, assim como o uso do rapé e as pinturas corporais, visa proporcionar aos visitantes uma conexão mais profunda com as tradições Pataxó.
A experiência se encerra com um banho de ervas, utilizando folhas de amescla fervidas, um ritual de limpeza espiritual que complementa a imersão na cultura Pataxó, reforçando a importância do projeto para a preservação e difusão de seu patrimônio.
