Brasil avança na redução de crianças sem vacinação inicial, mas desafios persistem
O Brasil registrou uma melhora expressiva no número de crianças que não receberam a primeira dose da vacina DTP (pentavalente), caindo de 360 mil em 2023 para 255 mil em 2024 e uma projeção de 50 mil em 2025. Este resultado, que representa uma redução de 86,1% entre 2023 e 2025, é atribuído tanto ao aumento geral da cobertura vacinal quanto aprimoramentos nos sistemas públicos de registro e divulgação de dados sobre imunização. A DTP é considerada um indicador chave por sua capacidade de medir a efetividade do sistema de saúde em oferecer um esquema vacinal completo.
Apesar do avanço na primeira dose, o abandono do esquema vacinal completo continua sendo uma preocupação. Luciana Phebo, chefe de Saúde do Unicef no Brasil, ressalta que a falta de continuidade na vacinação deixa as crianças desprotegidas e aponta o acesso às vacinas como o principal obstáculo para a elevação das coberturas vacinais no país. Os dados consolidados entre 2000 e 2025, que cruzam registros de 195 países membros da OMS, literatura científica e estimativas populacionais da ONU, avaliam as coberturas das principais vacinas infantis.
No cenário global, a cobertura da primeira dose da DTP em 2025 atingiu 90% dos bebês, um aumento modesto de um ponto percentual em relação aos três anos anteriores, enquanto a cobertura com as três doses manteve-se em 85% desde 2022. No Brasil, a cobertura da primeira dose da DTP em 2025 alcançou 98%, o índice mais alto desde 2015. Contudo, a proteção completa com as três doses apresentou uma queda de quatro pontos percentuais em relação a 2024, situando-se em 86%.
Barreiras que Afetam a Adesão Vacinal
A tendência global de abandono do esquema vacinal antes da conclusão das doses recomendadas é influenciada por diversos fatores no Brasil. A dinâmica familiar, com a fragmentação da atenção entre múltiplos filhos à medida que crescem, e a complexidade do calendário vacinal brasileiro, um dos mais completos do mundo, exigem atenção redobrada de pais e profissionais de saúde, tornando a Caderneta da Criança uma ferramenta essencial. A rotina de trabalho, especialmente após o fim da licença-maternidade, também limita o tempo disponível para levar as crianças aos postos de saúde, o que reforça a importância de unidades com horários estendidos.
Diante desse quadro, o Ministério da Saúde e o Unicef têm incentivado a vacinação em escolas, como parte do Programa Saúde nas Escolas (PSE). A iniciativa visa levar a vacina até as crianças, reconhecendo as instituições de ensino infantil como espaços propícios à promoção da saúde. No entanto, a logística da vacinação enfrenta desafios adicionais impostos por mudanças climáticas e violência urbana. Eventos climáticos extremos na Amazônia dificultam o transporte de insumos para comunidades isoladas, enquanto conflitos em grandes cidades, como no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, podem paralisar serviços de imunização durante operações policiais.
Recomendações e Próximos Passos
O Unicef destaca a importância da Estratégia de Saúde da Família e dos agentes comunitários de saúde na busca ativa por não vacinados. No entanto, a complexidade territorial do Brasil e a intersecção com vulnerabilidades sociais, como segurança pública, mudanças climáticas e condições de trabalho, extrapolam a esfera da saúde pública. O relatório do Unicef recomenda o fortalecimento da imunização em contextos de fragilidade e conflito, o combate à desinformação sobre saúde, o aumento do financiamento para programas de imunização e o investimento em sistemas robustos de vigilância epidemiológica.
O estudo monitorou coberturas de vacinas essenciais, como DTP, Pólio, BCG, Hepatite B, Haemophilus influenzae tipo b (Hib), Pneumocócica conjugada, Rotavírus e Febre Amarela, utilizando a DTP como principal parâmetro para acesso e abandono vacinal. A cobertura de vacinas contra o sarampo, em nível global, permanece abaixo da meta de 95%, abrindo espaço para novos surtos, cenário que também se reflete no Brasil com quedas na primeira e segunda doses entre 2024 e 2025.
