Um Novo Olhar Sobre a Formação do Indivíduo
Por muito tempo, o debate entre a influência da natureza (genética) e do ambiente (criação e circunstâncias) foi central para entender o que nos torna quem somos. A neurociência tem contribuído para desmistificar essa dicotomia, revelando que a complexidade do ser humano reside na intrincada interação entre o que herdamos e o que vivenciamos. Contudo, a pergunta sobre a proporção exata de cada fator persistia, impulsionando a busca por novos conceitos que pudessem abranger essa dinâmica.
Recentemente, a reflexão sobre a formação de indivíduos e a evolução das espécies levou à elaboração de novos termos que buscam descrever com mais precisão o processo de se tornar. A premissa fundamental é que tudo o que existe opera sob as leis da física e da energia. Sobre essa base, emerge a biologia, caracterizada pela complexidade auto-organizada que, por sua vez, gera novas propriedades e possibilidades.
Essas propriedades emergentes, que abrem caminhos até então inexistentes dentro das limitações físicas, são o que se denomina “permitências”. Diferentemente da natureza, vista como imutável, as permitências são dinâmicas. Elas representam a realidade biológica concreta, mas passível de expansão. Um cérebro, por exemplo, confere a permitência para o comportamento flexível, e a educação, ao expandir nosso aprendizado, abre mais “portas” para nós mesmos.
As informações que moldam nossa compreensão sobre a formação individual e a evolução da vida foram reunidas a partir de reflexões sobre conceitos desenvolvidos no campo da neurociência e filosofia, com base em trabalhos como os de Suzana Herculano-Houzel.
A Sinergia entre Permitências e Oportunidades
No entanto, as permitências, por si só, não são suficientes para moldar o ser. Elas só ganham significado quando interagem com as “oportunidades”. Estas podem variar desde a disponibilidade de recursos básicos, como energia e nutrientes, até as circunstâncias ambientais que permitem a ação. É fascinante notar que, enquanto muitas oportunidades provêm do ambiente externo, outras são ativamente criadas por nós mesmos.
A capacidade de usar nossas permitências nos permite não apenas aproveitar as oportunidades existentes, mas também criá-las. Ao criarmos novas oportunidades, podemos, por sua vez, desenvolver e expandir nossas próprias permitências. Essa relação cíclica e interdependente demonstra a natureza dinâmica e mutável do que somos. Não somos meros produtos de uma natureza predeterminada ou de um ambiente passivamente recebido; somos, em essência, co-criadores de nós mesmos através da interação constante entre nossas permitências e as oportunidades que buscamos e geramos.
Implicações para a Evolução e o Desenvolvimento Humano
Essa nova perspectiva oferece um quadro mais rico para entender não apenas o desenvolvimento de um indivíduo, mas também a evolução da vida ao longo de gerações. A flexibilidade comportamental, frequentemente associada à inteligência, pode ser vista como um resultado direto da expansão de permitências e da busca por novas oportunidades. Esse processo dinâmico sugere que a vida, em sua essência, é um empreendimento de constante autoria e adaptação, onde o inato e o adquirido se entrelaçam de forma inseparável para definir quem nos tornamos e para onde a vida se dirige.
